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“pode-se ser sensível para consigo mesmo. Tem-se consciência, por exemplo, de uma sensação de cansaço e depressão e, em vez de ceder a ela e sustentá-la por sentimentos deprimentes, que sempre estão à mão, indaga-se de si mesmo: “que aconteceu?” Por que estou deprimido'? O mesmo se faz notando-se quando se está irritado ou encolerizado, ou com tendência a sonhar acordado, ou a outras atividades de evasão. Em cada uma dessas situações, o importante é estar cônscio delas, e não racionalizá-las pelos mil e um modos por que isso pode ser feito; além do mais, estar aberto à nossa própria voz interior, que nos dirá — muitas vezes quase de imediato — porque estamos ansiosos, deprimidos, irritados. A pessoa comum tem sensibilidade com relação a seus processos corporais; nota mudanças, ou mesmo pequenas manifestações de dor; esta espécie de sensibilidade corporal é relativamente fácil de experimentar, porque a maioria das pessoas tem uma imagem do que é sentir-se bem. A mesma sensibilidade para com os próprios processos mentais é muito mais difícil, porque muitos nunca conheceram uma pessoa que funcionasse otimamente. Tomam como a norma o funcionamento psíquico de seus pais e parentes, ou do grupo social em que nasceram, e, enquanto não diferem deles, sentem-se normais e sem interesse em observar qualquer coisa. Muitas pessoas há, por exemplo, que nunca viram uma pessoa amorosa, ou uma pessoa de integridade, coragem ou concentração. É de todo evidente que, a fim de ser sensível a si mesmo, tem-se de possuir uma imagem de funcionamento humano completo, saudável — e como se adquire tal experiência, quando não foi ela tida na própria infância, ou mais tarde na vida? Por certo, não há resposta simples para esta pergunta; mas ela indica um dos mais críticos fatores de nosso sistema educacional. Enquanto ensinamos conhecimentos, estamos perdendo aquele ensinamento que é o mais importante para o desenvolvimento humano: o ensinamento que só pode ser dado pela simples presença de uma pessoa amadurecida e amorosa.” — Erich Fromm