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“MORTE DO VIZINHO Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar e seu corpo caiu no playground nesta ensolarada manhã de verão. Estava com depressão, dizem. Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor. Sei que escrevia sobre Freud. Seu corpo ainda está lá em baixo. Se eu tivesse ido à janela há pouco o teria surpreendido em pleno voo e lhe estendido a mão. Estendo-lhe, tardio, o poema que não interrompe a queda mas é o gesto possível que antecede o baque.” — Affonso Romano de Sant'Anna
MORTE DO VIZINHO
Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.