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“Era uma angústia petrificada em hilaridade, carregando o peso de um universo de calamidades, e estava emparedado para sempre dentro da jovialidade, dentro da ironia, dentro da diversão alheia; ele partilhava com todos os oprimidos dos quais era a encarnação, essa fatalidade abominável de ser uma desolação não levada a sério; zombavam da sua desgraça; ele era sabe-se lá que grande bufão saído de uma espantosa concentração de infortúnios, evadido da sua prisão, endeusado, elevado do fundo da ralé ao pé do trono, misturado às constelações, e, depois de ter divertido os danados, divertia os eleitos! Tudo que nele havia de generosidade, de entusiasmo, de eloquência, de coração, de alma, de furor, de ira, de amor, de inexprimível dor se resumia a isto: um acesso de riso! E ele atestava, como havia dito aos lordes, que isso não era a exceção, mas o fato corriqueiro, comum, universal, o amplo fato soberano, de tal forma integrado à rotina de viver que ninguém mais reparava nele. O morto de fome ri, o mendigo ri, o preso ri, a prostituta ri, o órfão, para ganhar a vida, ri, o escravo ri, o soldado ri, o povo ri; a sociedade humana é feita de tal forma que todas as perdições, todas as indigências, todas as catástrofes, todas as febres, todas as úlceras, todas as agonias se reduzem, acima do precipício, a uma espantosa máscara de alegria. Ele era isso, a mais rematada das máscaras. Ela era ele.” — Victor Hugo