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“«Portanto não foi produto do acaso, nem da minha intuição, nem sequer da minha liberdade», podem pensar, «mas pelo contrário havia coerência e propósito em tudo quanto ia fazendo, que honra ficar a saber mas também que maldição. Porque agora não tenho outro remédio senão ater-me a isso e alcançar de todas as vezes esse malfadado nível para não desmerecer de mim mesmo, que desastre, que enorme esforço, e quanta desolação para o meu trabalho». E isso mesmo pode acontecer a qualquer um, ainda que nem o seu trabalho nem a sua personalidade sejam públicos, basta que oiça uma explicação plausível das suas inclinações ou do seu proceder, uma encantatória descrição dos seus actos ou uma análise do seu carácter, uma valoração do seu método - saber que isso existe, ou lhe é atribuído -, para que qualquer um perca o seu bendito rumo variável, imprevisível, incerto, e com isso a sua liberdade. Tendemos a pensar que há uma ordem oculta que desconhecemos e também uma trama da qual quisémos fazer parte consciente, e se desta vislumbramos um único episódio que nos dê azo ou assim o pareça, se percebemos que nos incorpora um instante na sua débil roda, então é fácil que já não saibamos voltar a ver-nos arrancados dessa trama entrevista, parcial, intuída - uma figuração -, nunca mais. Nada pior que procurar o sentido ou acreditar que o há. Ou então havê-lo-ia, pior ainda: acreditar que o sentido de uma coisa, ainda que seja do pormenor mais insignificante, dependerá de nós ou das nossas acções, do nosso propósito ou da nossa função, acreditar que há vontade, que há destino, e inclusivamente uma trabalhosa combinação de ambos. Acreditar que não nos devemos inteiramente ao mais errático e desmemoriado, divagatório e descabelado acaso, e que alguma coisa consequente se pode esperar de nós em virtude do que já demos ou fizemos, ontem ou anteontem. Acreditar que pode haver em nós coerência e deliberação, como o artista acredita que as há na sua obra ou o poderoso nas suas decisões, mas só uma vez que alguém os convenceu de que as há.” — Javier Marías

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«Portanto não foi produto do acaso, nem da minha intuição, nem sequer da minha liberdade», podem pensar, «mas pelo contrário havia coerência e propósito em tudo quanto ia fazendo, que honra ficar a saber mas também que maldição. Porque agora não tenho outro remédio senão ater-me a isso e alcançar de todas as vezes esse malfadado nível para não desmerecer de mim mesmo, que desastre, que enorme esforço, e quanta desolação para o meu trabalho». E isso mesmo pode acontecer a qualquer um, ainda que nem o seu trabalho nem a sua personalidade sejam públicos, basta que oiça uma explicação plausível das suas inclinações ou do seu proceder, uma encantatória descrição dos seus actos ou uma análise do seu carácter, uma valoração do seu método - saber que isso existe, ou lhe é atribuído -, para que qualquer um perca o seu bendito rumo variável, imprevisível, incerto, e com isso a sua liberdade. Tendemos a pensar que há uma ordem oculta que desconhecemos e também uma trama da qual quisémos fazer parte consciente, e se desta vislumbramos um único episódio que nos dê azo ou assim o pareça, se percebemos que nos incorpora um instante na sua débil roda, então é fácil que já não saibamos voltar a ver-nos arrancados dessa trama entrevista, parcial, intuída - uma figuração -, nunca mais. Nada pior que procurar o sentido ou acreditar que o há. Ou então havê-lo-ia, pior ainda: acreditar que o sentido de uma coisa, ainda que seja do pormenor mais insignificante, dependerá de nós ou das nossas acções, do nosso propósito ou da nossa função, acreditar que há vontade, que há destino, e inclusivamente uma trabalhosa combinação de ambos. Acreditar que não nos devemos inteiramente ao mais errático e desmemoriado, divagatório e descabelado acaso, e que alguma coisa consequente se pode esperar de nós em virtude do que já demos ou fizemos, ontem ou anteontem. Acreditar que pode haver em nós coerência e deliberação, como o artista acredita que as há na sua obra ou o poderoso nas suas decisões, mas só uma vez que alguém os convenceu de que as há.
— Javier Marías