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“A morte deve ser privada de seu caráter como lugar de incursão do metafísico; sua banalização deve banir a questão sinistra por ela colocada. Schleiermacher falou, certa vez, do nascimento e da morte como "perspectivas" por meio das quais o homem vislumbra o infinito. Mas justamente esse infinito põe em questão seu caráter ordinário, o que faz com que o homem procure bani-lo: a repressão da morte é mais efetiva quando a morte foi naturalizada. A morte deve tornar-se tão coisificada, tão ordinária, tão pública, que nela não reste mais nenhum resquício de questão metafísica. Isso tudo tem consequências decisivas para a relação do homem consigo mesmo e com a realidade em sua totalidade. A ladainha de Todos os Santos expressa a disposição do fiel cristão diante da morte, na seguinte prece: A subitanea morte, libera nos, Domine - "Livrai-nos, Senhor, da morte precoce e inesperada". O arrebatamento súbito, sem que se esteja preparado, munido para enfrentá-lo, aparece como o perigo do homem, do qual ele quer ser salvo. Seu desejo é o de trilhar em plena consciência o último trecho do caminho; ele quer morrer por si mesmo. Se hoje resolvessemos formular uma ladainha dos não fiéis, sem dúvida a prece seria o inverso: "Senhor, dá-nos uma morte repentina e inesperada". A morte deve chegar repentinamente, sem dar tempo para pensar nem sofrer. Aqui fica claro, primeiramente, que a anulação plena do temor metafísico não foi bem sucedida; a pretensão era a de ter pleno controle sobre a própria morte, de preferência, produzindo-a por si mesmo, fazendo-a desaparecer como questão que supera a técnica e que diz respeito ao ser humano como tal. A importância que se confere à questão da eutanásia baseia-se no fato de que é preciso anular a morte como fenômeno que foge ao meu controle, substituindo-a pela morte técnica, a qual eu mesmo não necessito morrer. É preciso fechar a porta à metafísica, antes que ela consiga entrar.” — Bento XVI