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“Aquela era uma noite de arrependimentos. Reclinada no banco do carro, a cabeça pendente para o lado do vidro entreaberto, a cheirar a vómito e a sentir-se mais para lá do que para cá, Anabela só queria chegar a casa e deslizar para o vale dos lençóis envolta num pijama de flanela. Pegou no telemóvel e ligou a quem lhe pudesse valer. A operadora atendeu logo, relembrou que a linha era apenas para emergências e transferiu a chamada, quase sem dar tempo a Anabela, ocupada que estava em suprimir um arroto amargo, de lhe agradecer. – Boa noite, fala o piquete – disse uma voz masculina num tom neutro. – Ai, a minha cabeça... boa noite. Depois de uns segundos de silêncio, a voz do outro lado, mantendo o tom: – Fala o agente Nogueira, o piquete da noite. Posso ajudar? – Err, não está por aí uma senhora, hmm, uma senhora agente, por acaso? – Não. – Ah pois, é que, sabe... fui jantar fora e já não o fazia há muito tempo, e... – Uma náusea fê-la parar. Passou a mão pela testa, que estava quente, e sentiu o peganhento do óleo do stripper, um cheiro enjoativo adocicado, que a fez limpar as mãos à bainha do vestido.” — Vanessa Barroca dos Reis