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“27 de dezembro [1936] O presente mais lindo não é o mais caro, é o mais frágil – a caixa de cubos com os quais as mãozinhas inexpertas poderão formar um prado florido, dois cachorrinhos brincando, a galinha branca, orgulhosa dos pintainhos. Há ainda a bola de sete cores como um arco-íris de borracha, a piorra cantadeira e o pelotão de chumbo pregado no papelão. Paro um instante comovido – ah, a roda da vida, roda da vida rangente ou azeitada! Quando acordei, acordei general – trinta e seis soldadinhos me esperavam ao pé da cama, túnica azul, calça vermelha, baionetas em riste. As trincheiras foram abertas debaixo das begônias, as roseiras deixavam cair as pétalas sobre os heróis, todo o jardim sofreu com as batalhas delirantes, enquanto Madalena fazia comidinhas para a nova boneca e Emanuel folheava, no alpendre, o livro de gravuras de Rabier. Deposito o último brinquedo com cuidado, não fosse despertá-las. Porejadas de suor, as crianças dormem. Na parede, como prego, dorme também o pernilongo, pesado de sangue que também é um pouco meu, apesar da incredulidade rancorosa de Mariquinhas.” — Marques Rebelo

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27 de dezembro [1936] O presente mais lindo não é o mais caro, é o mais frágil – a caixa de cubos com os quais as mãozinhas inexpertas poderão formar um prado florido, dois cachorrinhos brincando, a galinha branca, orgulhosa dos pintainhos. Há ainda a bola de sete cores como um arco-íris de borracha, a piorra cantadeira e o pelotão de chumbo pregado no papelão. Paro um instante comovido – ah, a roda da vida, roda da vida rangente ou azeitada! Quando acordei, acordei general – trinta e seis soldadinhos me esperavam ao pé da cama, túnica azul, calça vermelha, baionetas em riste. As trincheiras foram abertas debaixo das begônias, as roseiras deixavam cair as pétalas sobre os heróis, todo o jardim sofreu com as batalhas delirantes, enquanto Madalena fazia comidinhas para a nova boneca e Emanuel folheava, no alpendre, o livro de gravuras de Rabier. Deposito o último brinquedo com cuidado, não fosse despertá-las. Porejadas de suor, as crianças dormem. Na parede, como prego, dorme também o pernilongo, pesado de sangue que também é um pouco meu, apesar da incredulidade rancorosa de Mariquinhas.
— Marques Rebelo