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“Ao longo das leituras decisivas de Platão, René Descartes, Georg W. F. Hegel, Friedrich Nietzsche ou Martin Heidegger, Irigaray não determina o destino da mulher na filosofia apenas como um destino mimético, que a condena a imitar os homens quando ela maneja os conceitos. A mulher que pensa não é uma matéria animada, simples cópia do logos masculino que para ela é sempre uma forma. A mulher se afasta desse mimetismo e dessa materialidade por um efeito de espelho irônico e subversivo. Speculum é, assim, uma réplica do estádio do espelho de Lacan, espelho em que nenhuma mulher nunca é refletida. O título Speculum de l’autre femme [Speculum da outra mulher] evoca obviamente o instrumento ginecológico [espéculo] que permite “olhar as trevas”, mas também revela, por um estranho efeito de reverberação, que essa obscuridade está alojada no olho de quem olha. Ao se tocarem, os lábios não deixam ver nada do mistério daquilo que cobrem, se por visível entendermos uma forma saliente que se pode reter tanto com os olhos quanto com as mãos. Quanto à “matéria”, considerada a parte ontológica do feminino, ela não é informe mas informalizável. “Substantivo comum para o qual não se pode determinar a identidade. (A/uma mulher) não obedece ao princípio de identidade.” Mais adiante: “Esse (se) tocar dá à mulher uma forma que indefinida e infinitamente se transforma sem se fechar em sua apropriação”. O informalizável promete ao prazer uma infinidade de metamorfoses.” — Catherine Malabou