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“Você conheceu algum poema-veneno que faria explodir minha prisão num maço de miosótis? Uma arma que mataria o rapaz perfeito que mora em mim e me obriga a asilar todo um aglomerado de animais? As andorinhas se aninham debaixo de seus braços. Aí elas construíram um ninho de terra seca. Lagartas de veludo cor de tabaco mesclam-se nos cachos dos seus cabelos. Sob seus pés um enxame de abelhas, e ninhadas de víboras atrás dos seus olhos. Nada o emociona. Nada o perturba a não ser as meninas fazendo a primeira comunhão, pondo a língua para o padre, ajuntando as mãos, baixando os olhos. Faz frio como na neve. Sei que ele é sorrateiro. O ouro mal o faz sorrir, mas se ele sorrir, terá a graça dos anjos. Que cigano seria suficientemente veloz para livrar-me dele com um punhal inevitável? É necessário velocidade, uma boa pontaria, uma bela indiferença. E... o assassino ocupou seu lugar. Voltou esta manhã de uma volta pelas espeluncas onde viu marinheiros, putas, uma delas deixou no seu rosto o traço de uma mão sangrenta. Ele pode partir para bem longe mas é fiel como um pombo. Outra noite, uma velha atriz colocou uma camélia na sua lapela. Eu quis amassá-la: as pétalas caíram sobre o tapete (mas que tapete? Minha cela é pavimentada de pedras achatadas) em grossas gotas de água transparentes e mornas. Agora, apenas ouso olhar para ele, pois meus olhos atravessam sua carne de cristal e estes ângulos rígidos perfazem tantos arcos-íris que eis por que choro. Fim. Pode não parecer grande coisa para vocês, mas este poema me aliviou. Eu o caguei.” — Jean Genet