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“Podemos identificar no que estamos chamando de racismo recreativo formas de operação similares àquelas presentes em outros tipos de racismo. Demonstraremos nos capítulos posteriores que a motivação psicológica por trás do racismo recreativo tem algumas características do que especialistas chamam de racismo aversivo. Segundo psicólogos cognitivistas, os sentimentos conscientes e inconscientes que sustentam atitudes negativas em relação a negros são ancorados pelo funcionamento do psiquismo humano. Nós raciocinamos por um processo de percepção, classificação e generalização, elementos responsáveis pela criação de esquemas mentais a partir dos quais pessoas e situações são interpretadas. Mais do que meras construções cognitivas, eles possuem conteúdos formados por representações sociais dos diferentes grupos. Esse é um dos motivos pelos quais pessoas podem defender a igualdade formal entre todos os indivíduos, mas ainda assim serem influenciadas por sentimentos que as motivam a se relacionarem preferencialmente com pessoas que fazem parte do mesmo grupo racial. O racismo aversivo ocorre principalmente pela expressão de preconceitos sutis, mas persistentes, que indicam o desprazer na interação social com negros, motivo pelo qual pessoas brancas tentam evitar contato com eles ou os tratam com o devido distanciamento social. Os racistas aversivos tratam minorias raciais de maneira cordial, mas essa interação não tem um caráter espontâneo, sendo meramente circunstancial. Como é o caso de pessoas abertamente racistas, o comportamento desses indivíduos também decorre de um sentimento de superioridade em relação a minorias raciais, embora ele não seja necessariamente um ponto de partida para suas interações sociais e posições políticas. Eles podem não discriminar pessoas a partir dessa convicção, mas possivelmente não contestarão processos sociais responsáveis pela opressão racial. A atuação deles se limitará na maior parte do tempo à defesa do tratamento igualitário entre todos. Certos autores afirmam ainda que a tendência a evitar contato com negros também tem um caráter estratégico: ela parte do interesse deles em não serem vistos como racistas. Interações sociais com minorias raciais são, portanto, fonte de ansiedade para pessoas brancas, motivo pelo qual muitas delas procuram evitar contato social com membros desses grupos. Mas, embora convivam quase exclusivamente com pessoas do mesmo grupo racial, esses indivíduos rejeitam enfaticamente a sugestão de que sejam racistas em função da sua crença em ideais igualitários, o que efetivamente pode corresponder às suas convicções.” — Adilson José Moreira