Quote image editor
“Esses momentos de distanciamento, efêmeros, vinham de fora, eu não buscava nada disso. Muito pelo contrário, evitava situações que pudessem me tirar da minha obsessão: leituras, saídas e outras atividades que antes gostava de fazer. Desejava o ócio completo. Recusei com ímpeto uma carga extra de trabalho que meu diretor solicitou, e quase o insultei ao telefone. Sentia que estava no direito de me opor a tudo o que atrapalhasse uma entrega sem limites às sensações e narrativas imaginárias da minha paixão. No trem, no metrô, nas salas de espera, em qualquer lugar em que é permitido ficar à toa, logo que eu me sentava, começava a fantasiar com A. No momento exato em que entrava nesse estado, minha cabeça era invadida por um espasmo de felicidade. Tinha a impressão de me abandonar a um prazer físico, como se o cérebro, sob o afluxo repetido das mesmas imagens, das mesmas lembranças, pudesse ter um orgasmo, como se fosse um órgão sexual similar aos outros.” — Annie Ernaux