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“Sexo casual. Esse namorado dela talvez seja casual. Queria tanto ser casual, deve ser uma delícia ser casual, uma suave passagem de um beija-flor na janela, jamais, nada é casual depois que se é atravessado pela tragédia, outra sintonia, mais melancólica, tudo são fardos, a água da casa dos homens casuais tem outro gosto, os detalhes dos apartamentos mal decorados objetos encaixotados fórmicas descoloridas compensados óbvios lençóis com cheiro de gente, como se pode ser casual reparando na desconcertante neutralidade dos móveis triviais, diferentes dos móveis que tinham uma pessoa deitada por cima e de repente deixaram de ter, diferentes dos móveis em cima dos quais se jantava contando sobre tentáculos exaustos do polvo gigante do Pacífico e de repente não se janta, os móveis dos homens casuais às vezes baratos às vezes muito caros mas todos despojados da contração de uma dor tão estrutural e acachapante, as fibras banais dos móveis deles, as palavras que os homens casuais dizem e que não se encaixam com o que eu aprendi serem as palavras certas de um homem, as melhores para ouvir, nas casas deles eu caminho densa pelos pisos sintéticos laminados que logo se incomodam com meu peso imenso massacrando o acabamento, a água do meu banho que engrossa em mim e atola no ralo, saio alagando os banheiros, vazando pela sala, cachoeira nas varandas, nada me é casual.” — Mariana Salomão Carrara