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Guantánamo Diary: Restored Edition

Book by Mohamedou Ould Slahi · 5 quotes · Prisão, Tortura, América

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Guantánamo Diary: Restored Edition Quotes

“Mas acho que quando a tortura entra em cena, as coisas saem do controle. A tortura não garante que o detento colabore. Para deter a tortura, o detento precisa agradar seu agressor, ainda que com informações inverídicas, às vezes enganosas; averiguar informações leva tempo. E a experiência mostra que a tortura não impede nem reduz ataques terroristas: Egito, Argélia e Turquia são bons exemplos disso. Por outro lado, a discussão tem trazido excelentes resultados. Depois do ataque fracassado ao presidente do Egito em Adis Abeba, o governo firmou um cessar-fogo com o AlGawaa al-Islamiyah, e este mais tarde optou pela luta política. No entanto, os americanos aprenderam muito com seus aliados adeptos da tortura e vêm trabalhando em estreita colaboração com eles.”

“Depois de ouvir todo tipo de ameaça e declarações degradantes, comecei a perder grande parte da conversa entre os árabes e seus cúmplices americanos, e a certa altura mergulhei em meus pensamentos. Tinha vergonha de que meu povo estivesse sendo usado para esse horrível trabalho por um governo que afirma ser o líder do mundo livre democrático, um governo que prega contra a ditadura e “luta” pelos direitos humanos e manda seus filhos para a morte por esse objetivo: que peça esse governo prega em seu próprio povo!”

“Você será enviado a uma instalação dos Estados Unidos, onde vai ficar durante o resto de sua vida”, ele ameaçou. “Você nunca mais verá sua família. Sua família vai ser fodida por outro homem. Nas prisões americanas, terroristas como você são estuprados por muitos homens ao mesmo tempo. Os guardas em meu país fazem seu serviço muito bem, mas ser estuprado é uma coisa inevitável. Mas se você me disser a verdade, você será libertado imediatamente.” Eu tinha idade suficiente para saber que ele era um sórdido mentiroso e um homem sem honra, mas ele estava no comando, e assim eu tinha de ficar ouvindo suas besteiras continuamente. Eu só queria que as agências começassem a empregar pessoas mais espertas. Será que ele achava de verdade que alguém acreditaria em suas bobagens? Teria de ser muito estúpido: será que ele era estúpido ou pensava que eu era estúpido? Eu o teria respeitado mais se me dissesse: “Olhe, se você não disser o que eu quero ouvir, eu vou torturar você”

“Posso dizer também que os detentos tinham chegado ao limite da dor. Eu só ouvia gemidos. Perto de mim tinha um afegão que estava chorando muito alto e pedindo ajuda ■■■■■■■■■■ ■■■■■■■■■■■■■■■■■■ . Estava falando em árabe: “Senhor, como pôde fazer isso comigo? Por favor, aliviem minha dor, cavalheiros!”. Mas ninguém se deu sequer ao trabalho de examiná-lo. O sujeito estava mal já em Bagram. Eu o tinha visto na cela ao lado da nossa; ele vomitava o tempo todo. Senti tanta pena dele. Ao mesmo tempo, eu ria. Dá para acreditar nisso, eu ria estupidamente! Não dele; eu ria da situação. Primeiro, ele se dirigiu a eles em árabe, que nenhum guarda entendia. Depois, ele os chamou de cavalheiros, o que eles certamente não eram.”

“A maior parte dos interrogadores voltava de mãos vazias dia após dia. “Nenhuma informação obtida da fonte”, era o que os interrogadores informavam todas as semanas. E exatamente como ■■■■■■■■■■■■■■ tinha dito, o ■■■■■■■■■■ estava desesperado para fazer os detentos falar. Assim, ■■■■■■■ montou um mini■■■■■■■■■ dentro da organização maior. Essa força-tarefa, que englobava gente do Exército, da Marinha, dos Fuzileiros Navais e civis, tinha como missão arrancar informações dos detentos. A operação foi cercada de máximo sigilo. ■■■■■■■■■■ era um personagem de destaque nesse subgrupo ■■■■■■ . Embora ■■■■■■■ fosse uma pessoa inteligente, davam a ele o serviço mais sujo da ilha e, por meio de uma espantosa lavagem cerebral, o levavam a crer que estava fazendo a coisa certa. ■■■■■■ estava sempre envolto num uniforme que o cobria da cabeça aos pés, porque ■■■■■■■■■ tinha consciência de que ele estava cometendo crimes de guerra contra detentos indefesos. ■■■■■■■■■■■■ era A Coruja da Noite, O Adorador do Diabo, O Homem da Música Alta, o Cara da Antirreligião, o interrogador por excelência. Cada um desses apelidos se justificava. ■■■■■■ tinha por hábito “entreter” os detentos que não estavam autorizados a dormir. Privou-me de sono durante cerca de dois meses, ao longo dos quais tentou subjugar minha resistência mental, sem sucesso. Para me manter acordado, ele resfriava ao máximo a temperatura de onde eu me achava, me obrigava a escrever todo tipo de coisa sobre minha vida, me dava água sem parar e às vezes me fazia ficar a noite inteira de pé. Um dia, me deixou pelado com ajuda de um carcereiro ■■■■■■■■■ para me humilhar. Outra noite, me pôs numa sala gelada cheia de fotos propagandísticas dos Estados Unidos, inclusive uma foto de George W. Bush, e me fez ouvir mil vezes o hino nacional americano. ■■■■■■ cuidava de diversos detentos ao mesmo tempo. Eu ouvia muitas portas batendo, música alta e detentos indo e vindo, o barulho das pesadas correntes denunciando sua presença. ■■■■■ punha os detentos numa sala escura com imagens que supostamente representavam demônios. Fazia os detentos ouvir música de ódio e fúria, e a música “Let the Bodies hit the Floor” mil vezes, a noite inteira, na sala escura. Ele era muito explícito sobre seu ódio ao islã, e proibia terminantemente qualquer prática islâmica, inclusive as orações e a recitação do Corão.”