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Quote by Carla Madeira

“Mas, no coração, tudo que vaza é vermelho. A omissão sangra o amor a conta-gotas e o perde um pouco a cada dia. Pode durar anos, como durou, até que o silêncio irrompa com a força do tempo.”

Quote by Carla Madeira

Work

Véspera

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Author

Carla Madeira

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“A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente - é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas por aí aos montes.”

“O olho é o limite. O mundo caiu do céu vindo parar dentro de meu olho, junto desceram pássaros diurnos e noturnos; nenhum deles me livrou do meu suplício, nem lhe carregou a culpa; não levantaram vôo nunca mais, minhas membranas grudaram em suas patas. Fiquei com a natureza em mim, o olhar de medo, distante das coisas, saturado de ar, esvoaçado e flutuante, ciscos e ciscos, cílios caídos dentro do vulcão, as constelações mortas, as luzes apagadas. Isso me pesa, não porque o universo seja desproporcional ao que posso ver, mas porque me enche de remorsos não poder vê-lo por inteiro. Esforço-me em ver, não posso ver o que deveria, os escombros estão sob a tarja azul que apareceu sobre minha retina, a cada movimento me torno mais incapaz; além de tudo, o cansaço da ação do olhar, acrescido da incompreensão dos caminhos de ver, dá-me muito sono.”

“Acho que o seu bisavô, branco e muito, muito pobre nunca foi torturado, Betinho. Amarrado a um tronco. Surrado. Marcado com ferro quente. Nunca teve um dente arrancado à força nem recebeu sal e vinagre nas feridas abertas pelo chicote. O seu bisavô branco e pobre não foi separado da família. E, pelo que me consta, nunca trabalhou sem receber pagamento nem dormiu numa senzala. Um homem branco podia sim ser mal remunerado. Mas nunca escravizado. Podia ficar desempregado, sem ter uma colherada de farinha ou um gole d'água pra oferecer aos seus. Mas era livre. A seca e a miséria podiam alcançar um homem branco e pobre como o seu avô, que lamentaria a sua falta de sorte. Sem algemas nos pulsos ou grilhões no pescoço. Se a doença corroesse a carne de um homem branco, ele seria consumido livremente. A loucura podia tomar conta de um homem branco. Ele seria um homem louco. Mas livre. Ele sempre seria livre. Uma mulher branca podia ser muito, muito pobre. Nem por isso teria os filhos arrancados dos seus braços diretamente para as mãos dos compradores. Por miserável que fosse uma mulher branca, não seria obrigada a oferecer o leite do seu peito ao filho de outra, enquanto o seu próprio filho era privado de ser alimentado. E mesmo se fosse tão pobre a ponto de ter os seios secos, não seria impedida de segurar a sua cria junto ao corpo, procurando dar consolo pra ela. Uma pessoa branca e muito pobre podia trabalhar sem descanso, economizando moedas até se tornar próspera. E, se construísse um império, deixaria de ser pobre, tornando-se somente rica. Já um homem negro, mesmo que enriquecesse, continuaria sendo um homem negro. Ainda hoje, Betinho, se um negro, no auge do desespero, furta um pão, a notícia se espalha: “Aquele negro é um ladrão!”. No entanto, se é um branco que rouba, o comentário se modifica: “Aquele homem cometeu um delito”. Então, sua mãe branca, neta do seu bisavô branco, não sabe do que está falando. É o que eu acho.”

“Há quantos anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro D'água. Não que seja fato memorável ou excitante história. Mas vale a pena contar o caso pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de berro d'água incorporou-se definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na parte externa do Mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa, transbordando de límpida cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E um berro inumano cortou a placidez da manhã no Mercado, abalando o próprio Elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um homem traído e desgraçado: — Águuuuua! Imundo, asqueroso espanhol de má fama! Corria gente de todos os lados, alguém estava sendo com certeza assassinado, os fregueses da venda riam às gargalhadas. O berro d'água de Quincas logo se espalhou como anedota, do Mercado ao Pelourinho, do largo das Sete Portas ao Dique, da Calçada a Itapoã. Quincas Berro D'água ficou ele sendo desde então, e Quitéria do Olho Arregalado, nos momentos de maior ternura, dizia-lhe Berrito por entre os dentes mordedores.”

“Primeiramente, senti o contato do meu corpo nas asas de um anjo, depois veio a sensação do voo-teste de um paraquedista em domingo no clube, seguida do velejar britânico no litoral do Taiti, acompanhado da delícia de uma orquestra caprichando a mais bela melodia, que se transformou numa suave intoxicação por champanhe francês e por fim algo que se abria, com toda a certeza as montanhas de Ali Babá, oferecendo um banquete de diamantes em seu interior exclusivo, úmido e misterioso.”

“Não posso ser julgado responsável pelas crises de ciúme que, periodicamente, acometem os homens calvos. São criaturas incontroláveis, talvez devido à violência e a verticalidade dos raios solares. O sol é o grande desconhecido, cura uns, mata outros e não raro enlouquece pobres mortais. Os calvos não deviam frequentar as praias, a não ser protegidos por casquetes e sombreros. Vi trêfegos carecas darem vexame no Gonzaga e no Guarujá, investindo contra as mais puras donzelas em autênticas agressões sexuais. Afastem suas filhas desses tipos. O Gallup já fez importantes e instrutivas pesquisas sobre o comportamento sexual, político e social dos calvos. Sabe-se, por exemplo, que evitam usar chapéu por puro masoquismo. São megalomaníacos, mórbidos românticos e tristemente impetuosos sob o bombardeio do infravermelho. Podem estar calmos agora, sugando refrescos de tamarindo por canudinho, mas já no momento seguinte perdem o controle e as mulheres que se acautelem. Aparentemente ajustados, sonham com um mundo ditatorial e nirvânico, povoado de odaliscas, eunucos e servis mercadores.”