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Quote by Muriel Barbery

Work

Une heure de ferveur

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Author

Muriel Barbery
Muriel Barbery

Muriel Barbery, born on May 28, 1969, is a renowned French novelist. Her works are known for their unique perspective and profound thinking, which have won her a wide audience. more

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“Amigo mesmo só me lembro de um. Era alguns anos mais velho e dizia que eu tinha um futuro. Vivia lendo os jornais, as revistas especializadas, depois me contava que era tudo mentira. Recebia correspondência do estrangeiro, ouvia os clássicos, ia publicar em breve um tratado polêmico sobre não sei mais que matéria. Inventou e queria me ensinar uma língua chamada desesperanto, tendo organizado uma gramática e farto vocabulário. Dedicou-se numa fase à escultura comestível; ergueu no apartamento uma cidade inteira de marzipã, mas nunca chegou a expor. Também era dado a premonições; fazia certas previsões que ele mesmo se assustava e emudecia uma semana. E parece que tinha em seu passado uma história conhecida e admirada por gente da sua geração. Dessas histórias ele nunca me falou, e por isso eu o admirava mais. No bar, quando bebia além da conta, ou quando já chegava cheio de estimulantes no pensamento, dizia poemas. Havia noites, geralmente noites de sábado quando lotava o bar, que ele deixava cair na testa a franja negra e cismava de declamar em francês. Eu ficava sem jeito porque ele declamava alto demais e olhando para mim, e as outras pessoas na mesa não entendiam os versos. Eu, ele achava que eu pegava o sentido. O resultado é que sobrávamos só nós dois na mesa, porque as poucas pessoas que suportam poesia, não suportam francês.”

“Tinha acabado de explicar a nossa amizade como uma espécie de amor. O mesmo que sentira pelo meu pai, um amor perfeito, que não precisava de manifestações emotivas nem de qualquer compromisso forçado. Ouvir Smallgods negar a existência do amor era como dizerem-me que alguém tinha morrido. Ainda não lhe tinha contado que tinha enlouquecido no Verão. Enquanto ele estivera longe, tivera a certeza de que iria compreender. Agora, na sua presença, já não estava tão certo.”

“158 - Saber usar dos amigos. Há nisto a arte de ser discreto. Uns são bons para a distância e outros para a proximidade; e o que talvez não é bom para conversação o é para correspondência. Purifica a distância alguns defeitos que eram intoleráveis na presença. Não só há de se procurar o deleite, senão a utilidade. Um amigo é tudo e há de ter as três qualidades do bem: único, bom e verdadeiro. Poucos são os bons amigos, e o não sabê-los eleger os torna raros. Sabê-los conservar é mais que fazê-los amigos.”

“precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade.”