“Planícies de oliveiras num horizonte azulíssimo. Tamanho é o frio que não se formam nuvens, será isso. Estamos a ir para Campo Criptana, desde o século XVI terra de moinhos, daqueles redondos e brancos com velas negras. Foi aqui que Quixote os combateu. Eram 30 ou 40 contra um. Agora são dez, no cimo de uma colina, com a aldeia aos pés. Deixamos o carro junto ao mais alto, e quando saímos é como se nos dessem um golpe na cabeça. Já estava frio, mas agora está frio com pazadas de vento. Nem na Sibéria, em dezembro, me doeu tanto. Avançamos com os cachecóis por cima da cara e as mangas puxadas até a ponta dos dedos, a segurar caderno e caneta. — Está ali um homem – gritas tu. — Vamos lá – grito eu. O homem são dois, Anastasio e Crisanto, nomes que quem-nos-dera, mesmo Cervantes chamava-lhes um figo. Um tem 75, o outro 68 e sentam-se como na praia ao poente. De tanto para aqui virem, o vento já nem lhes toca. Este é o melhor moinho de todos, dizem eles, “nem demasiado largo, nem torto.” Chama-se Burleta. Os velhos do mar têm barcos. Os velhos de Campo Criptana têm moinhos.”
Quote by Alexandra Lucas Coelho
Book:E a Noite Roda
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E a Noite Roda
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