“O homem que fugiu
fugiu da lei
que estrada o vestiu
não sei
Acredito que era
o gémeo
de um pássaro alerta
com a cabeça
a prémio
O homem que fugiu
é meu
se alguém o pariu
devo ter sido
eu
sua amante-mãe
mulher
que inventa o que ele vê
e o fere
O homem que fugiu
ganhou ao jogo
a mão incrustada
com que rouba
o fogo
e vos rasga o sono
em tiras
para que não sonheis
mentiras”
Source: Poesia, 1960-1989 (Documenta poética)
“XCII
Voltam a miséria e a ruína
A amargura corre pela Pátria
O rei foge à cruel chacina
Longe desta terra milenária.
Terra de Camões, santa mãe divina
Cuja fé houvera da Samária.
No Brasil vivia-se em beleza
E por cá chorava-se de tristeza.”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXIX
Perante a situação tão turbulenta
O ferro, o fogo, os outros elementos
Aguardam o trovão da dura tormenta
Que pela ambição de seus regimentos
Se espera tão cruel como opulenta,
Na espada confiando seus assentos!
Glória eterna espera tal peleja
Sendo no Olimpo, o que se deseja!”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXX
Tenta-se a todo o transe evitar
Que a invasão nos traga nova ruína,
Mas já soam as fortes trombetas no ar,
Lá longe em cada monte e ravina!
A fúria napoleónica de matar,
Corre para a Lisboa citadina,
Ante a confusão e o espanto geral
Abandona o País a família real!”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXXI
Mas não é só a real família
Que foge ao poderoso invasor francês,
Pois foi tão grande e triste a ignomínia
Que a própria nobreza também o fez,
Além dos ricos, a criadagem, quem diria,
A hora da deserção tivera a sua vez!
Que malfadadas horas nos chegavam,
Que seus filhos, a Pátria abandonavam.”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXXII
Enquanto para o Brasil aqueles se iam,
Por mais incrível que o dilema pareça
Os que cá ficavam, o invasor recebiam,
Sem temor que algo lhes aconteça,
pois de libertadores se tratariam
E não inimigos a quem se obedeça!
Junot entrava desta maneira em paz,
Com arrogância ignóbil mas eficaz.”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXXIII
Olhando espantado gente tão mesquinha
Que por sua honra, fama e perigos
Trouxera até do inferno, e que tinha,
Mostrava um juízo pobre aos inimigos
Agora que tal zelo não convinha,
Por respeito a seus valores antigos!
Marte não acreditava no que via
Ficando mudo perante tal apatia!”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXXIV
Se tal imagem nos fica da primeira
Pela fama trazida pelo invasor
Justiça seja feita por inteira
Àqueles que por seu imenso valor
Tal medida houveram por conselheira,
Por seu interesse achado superior!
Assim como Prometeu fora agrilhoado
Estava o povo lusitano amarrado!”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXXV
Quantos heróis tivera esta Pátria
Que sua vida por ela sacrificaram
Quantas gerações por sua ousadia
Tão ilustre herança nos legaram
Quanto esforço e tanta valentia
Para dar ao mundo o que ganharam!
Olhai as quinas da bandeira de Cristo
Como símbolo de milagre jamais visto!”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada
“LXXXVI
Que diriam Viriato e os Afonsinos,
O grande Nuno e o sábio Infante,
E tantos outros que com os seus desígnios
Sempre se lançaram foram por adiante…
Recorde-se os Montes Herminios,
Recorde-se Aljubarrota e o Gigante,
A odisseia do grande Vasco da Gama
As lutas que tiveram pela sua fama!”
Source: Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada