Quotessence
Home / Quotes / Quote by Juan-David Nasio

Quote by Juan-David Nasio

“Uma coisa é a demanda de amor ser inaceitável; outra é senti-la, experimentá-la, fazer a experiência de ter que revelar o ponto central, o núcleo do Eu, isto é, o ponto no qual o objeto enquanto tal aparece na superfície. É o que, na teoria lacaniana, se pode chamar de “falta a ser”. O sujeito, o analisando, é confrontado não só com a inaceitabilidade da demanda de amor, mas também é confrontado com a falta a ser. Isso quer dizer que o seu ser é uma falta, que seu verdadeiro ser na análise não é ele, o seu Eu: é o que jaz no Eu. O que jaz no centro do Eu é uma falta. É um ponto fundamental, enigmático. É um ponto central, aquele que chamamos habitualmente, na terminologia lacaniana, de objeto “a” ou objeto de Gozo. Nesse momento de seqüência transferencial, nesse momento fecundo, o analista deve silenciar. Deve fazer silêncio e, como sabemos, há várias formas de silêncio. O analista deve fazer “silêncio-em-si” para fazer surgir o Grande Outro. É nesse momento que o analista faz com que surja o Grande Outro. Para que ele surja, é necessário que o analista faça silêncio em si. Se o analista faz ativamente silêncio em si, é ele que dirige o tratamento. Se não o faz, ignora quem”

Quote by Juan-David Nasio

Work

Cómo trabaja un psicoanalista

Browse quotes and source details for this work. more

Author

Juan-David Nasio

Browse famous quotes and profile details for Juan-David Nasio. more

You May Also Like

“O coelho tirado da cartola foi o anticonvulsivante valproato de sódio (Depakote), que recebeu uma patente para uso no tratamento da mania exatamente na época em que as patentes anteriores dos antidepressivos estavam expirando. Assim como a depressão tinha sido ativamente promovida no mercado como um transtorno por parte daqueles que ofereciam uma cura química para ela, agora o transtorno bipolar foi embrulhado e vendido junto com seu remédio. O lítio havia funcionado para alguns indivíduos, e não para outros, mas, sendo um elemento que ocorre na natureza, não podia ser patenteado. O valproato foi inicialmente proclamado como o medicamento mais inteligente e confiável, aquele que finalmente estabilizaria os altos e baixos do sujeito bipolar.”

“Certa vez, contemplando um córrego nos jardins da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a pesquisadora em psiquiatria e escritora Kay Redfield Jamison lembrou-se de uma cena da poesia de Tennyson. Dominada por “um senso imediato e inflamado de urgência”, correu a uma livraria à procura de um exemplar e, em pouco tempo, viu-se com mais de vinte livros nos braços. A imagem inicial da Dama do Lago abriu-se numa espiral, ligando-se a outros temas e títulos, desde A morte de Arthur, de Malory, até O ramo dourado, de Frazer, e a livros de Jung e Robert Graves. Tudo parecia relacionado e, reunido, conteria “uma chave essencial” do universo, enquanto ela “ia tecendo sem parar” a sua rede maníaca de associações.”

“Como se poderia explicar o poderoso sentimento de interligação das coisas que é descrito com tanta precisão e coerência pelos sujeitos maníacos? Qual é, afinal, o meio de vinculação no nosso mundo? A resposta a essa pergunta talvez seja decepcionante em sua simplicidade: é a linguagem. São as palavras, as ideias e as associações entre elas que criam e moldam nossas realidades, e dependemos tanto das ligações quanto da inibição das ligações entre elas para conseguir pensar. Isso adquire o máximo de clareza quando as ligações entre as ideias surgem numa velocidade tal que o sujeito nem sequer pode reduzir seu ritmo ou detê-las. No que a psiquiatria chamava de “fuga de ideias”, um pensamento leva a outro, com persistência brutal e irreprimível.”

“Nas situações sociais, a maioria das pessoas acha que não diz a coisa certa; que, por alguma razão, as palavras lhe escapam. Só mais tarde consegue imaginar o que poderia ou deveria ter dito, no famoso “esprit d’escalier” – só depois de terminar de descer a escada é que ela se dá conta. Mas o sujeito maníaco tem uma experiência diferente. Possui as palavras com que falar. A atriz Patty Duke referiu-se a seu “incrível domínio da linguagem” quando se encontra na fase maníaca. Como disse a acadêmica Lisa Hermsen sobre sua experiência pessoal com a mania, “eu encontrava as palavras e digitava as letras” – um sentimento repetidas vezes ecoado por sujeitos maníacos. No dizer de um de meus pacientes: “As palavras certas estavam bem ali, eu não precisava mais pensar.” E Cheney: “As palavras certas simplesmente dançavam no ar, acima da minha cabeça, e eu só tinha que puxá-las para baixo e deixar que fluíssem pela minha caneta.”

“No entanto, na mania real é comum o impulso de estabelecer ligações ir muito além das convenções da comunicação. Nos livros de memórias de sujeitos maníaco-depressivos, é notável a frequência com que há uma fala súbita e sugestiva que se dirige ao leitor, como se a narrativa pudesse e devesse ser interrompida por um apelo direto ao destinatário. É como aquele momento do filme Violência gratuita, de Michael Haneke, em que um dos homens que aterrorizaram uma família inocente vira-se de repente e se dirige diretamente à câmera. Tais recursos podem ser entendidos como um desdém pós-moderno pelas convenções narrativas, mas será que também não podemos ver neles um eco da necessidade que têm alguns sujeitos têm de apelar para seu público, de confirmar uma cumplicidade ou uma ligação? Quando a atriz Vivien Leigh, presa num agudo episódio maníaco, virou-se para falar diretamente com a plateia do teatro no meio da peça Tovarich, vemos a mesma necessidade de um receptor, a necessidade de criar e afirmar uma ligação com ele.”

“Será que isso também não lança luz sobre a curiosa promiscuidade de muitos sujeitos maníacos? Como assinalou Terri Cheney, “o sexo maníaco não é realmente uma relação sexual. É discurso, é apenas outra maneira de desafogar a necessidade insaciável de contato e comunicação. Em lugar de palavras, eu falava com a pele”. O sexo mantém o receptor ali, bem perto: o maníaco passa de um parceiro para outro como passaria de um interlocutor para outro. Cheney observou de maneira brilhante que a famosa hiperatividade da mania – o sacudir-se, o tamborilar ou bater os pés, o remexer-se – é, simplesmente, um conjunto de formas da pressão para falar, para continuar falando.”

“A concentração exclusiva nos vínculos entre as palavras do maníaco significa negligenciar essa dimensão crucial do efeito que elas têm no receptor. Os saltos envolvem uma excisão dos pontos de suspensão da fala, que são exatamente os momentos que dão à outra pessoa o espaço para responder. Mas o discurso maníaco paralisa o ouvinte, e o momento de responder ou o silêncio que precederia uma resposta não acontecem. Falar mantém a outra pessoa presente, mas dessa maneira muito específica, que tem o efeito de desarmá-la. As palavras exercem sua magia – por um tempo –, imobilizando o receptor e impedindo-o de qualquer resposta real, do tipo que possa trazer o risco de ele largar ou censurar o sujeito maníaco. Não admira que o ouvinte, além de ficar exausto, sinta-se frequentemente manipulado ou controlado. É exatamente isso que distingue a depressão maníaca de outras formas de psicose em que a pessoa pode construir um receptor virtual, distante ou interno. Tem que haver um ouvinte real bem ali, diante dela. No entanto, há algo de tênue, até desesperado, na maneira de o maníaco reter seu interlocutor, como se tivesse de conservá-lo ali a qualquer preço, como um humorista de boate que tem de manter a plateia permanentemente concentrada nele. Será por acaso que a doença maníaco-depressiva é tão comum no mundo dos comediantes?”

“É por isso que, se você observar a plateia do cinema durante a projeção de uma comédia, verá que as pessoas olham não só para a tela, porém umas para as outras, ao passo que, quando é um drama, o olhar permanece fixo na tela. Os chistes sempre envolvem um terceiro, como se o nosso afeto do riso dependesse de mais alguém rir e sancioná-lo. Ao descrever seu primeiro episódio maníaco, um executivo de empresa explicou: “Eu achava extasiante poder fazer as pessoas rirem no escritório. Era capaz de fazer até as pessoas do metrô darem risada. As piadas e suas tiradas finais simplesmente continuavam a surgir, de forma natural, sem parar.”

“RETER UMA PLATEIA evoca um aspecto muito específico da infância, descrito por muitos sujeitos maníaco-depressivos. A mãe, o pai ou outro cuidador primário é alguém que apresenta oscilações de humor, em geral não anunciadas e assustadoras para a criança, que se sente alternadamente largada e adorada, com uma incoerência feroz. Essa gangorra dramática pode ser uma experiência cotidiana ou ocorrer na época do nascimento de um irmão, por exemplo. Em alguns casos, a mãe só consegue continuar próxima do filho quando se mantém uma situação de dependência completa. No momento em que a criança começa a afirmar sua independência, o amor materno desmorona. A estrutura pendular de algumas formas de psicose maníaco-depressiva, portanto, fica literalmente inscrita na criança. Tais rupturas significam que a experiência mais básica dessa criança é a de ser alvo de um grande investimento e, em seguida, alijada dele, num padrão que, mais tarde, ela pode repetir em suas próprias alternâncias de humor, nas quais ora se sente no centro do mundo, ora insuportavelmente abandonada e solitária. Da mesma forma, numa época posterior da vida, o sujeito pode buscar relações de dependência absoluta, como um modo de garantir o amor. Outra pessoa torna-se onipotente para ele, fonte de tudo o que é fornecido, e o mais ínfimo descaso ou frustração agiganta-se num sentimento de rejeição absoluta.”