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Psicanálise Quotes

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Psicanálise Quotes

“o que mais nos faz sofrer talvez seja justamente a relevância excessiva que atribuímos à nossa presença no mundo, pois essa relevância é a pedra de fundação de todas nossas obstinadas repetições, é graças a ela que insistimos em ser sempre “iguais a nós mesmos” (sendo que, no caso, essa expressão não tem um sentido positivo).”

“Os prazeres privados e de certo modo solitários para os quais criara uma arquitectura dependiam a tal ponto do dispositivo arquitectónico que se podia dizer que a máquina se tornara mais importante do que aquilo que produzia, ou, como sucede nas religiões iconófilas, as imagens fixavam mais fortemente a fantasia e a fé dos crentes do que os valores imateriais que deveriam representar, uma analogia cuja ascendência filosófica, de Feuerbach e Marx, Joaquim Heliodoro ignorava tão completamente quanto o desenvolvimento que fora imprimido à ideia por Freud e pelos seus seguidores, ao discutirem o conceito de objecto-fetiche, primeiro como substituição de um objecto ausente, depois como fixação num objecto presente mas dotado de um significado libidinal pela sua utilização. Joaquim Heliodoro sabia muito pouco destas coisas, mas, enquanto poeta, não queria que o desvelamento dos seus fetiches o fizesse despertar.”

“Se na paixão encontramos aquilo que supostamente queríamos, isso não acontece sem a nossa parte criativa bastante animada. Sim, estou dizendo que nós inventamos a pessoa amada. As lentes da paixão beiram o delírio e nos permitem olhar para o outro com uma gentileza que quase rompe com a realidade. Porque na paixão idealizamos o outro, não a partir dele mesmo, mas a partir daquilo que gostaríamos que ele fosse. Mas, se tudo funciona bem, o outro cai do pedestal que lhe oferecemos e demonstra sua preferência por vestir sua própria pele, em vez da fantasia que costuramos para ele. E é quando algo do outro pode aparecer que temos notícia da falta, que nos traz nossa companhia maior na vida: a solidão.”

“É comum que quando um dos parceiros comece um processo de análise ou de psicoterapia o outro se coloque avesso ao trabalho, como se tivesse ciúme do terapeuta, da analista ou mesmo de Freud. É frequente também certa ideia de que, quando um dos parceiros começa a análise, em seguida termina o namoro, o noivado, o casamento. Daí que a segunda enunciação explica a primeira. De certo modo, se o parceiro sente ciúme do analista, é porque sabe que ele mesmo não sairá ileso do processo – que, a princípio, nem é seu, mas passa a ser, em algum nível. Esse ciúme da análise do outro não é sem fundamento: quem faz análise se separa, sim. Mas se separa do quê? Essa é a questão. Às vezes, inclusive, é preciso se separar para continuar junto. Não se trata necessariamente de um rompimento ou de um divórcio, mas da separação de uma determinada maneira de se relacionar.”

“O que eu gostaria de destacar aqui é que, na ânsia de manter o amor supostamente vivo, há quem mantenha o objeto amoroso distante, única maneira de preservá-lo, já que as coisas se gastam. Sabe aquela louça chique que fica guardada para a ocasião especial que não chega? Há quem trate amor como coisa e, assim, não viva a experiência amorosa no laço com o outro propriamente dito, mas sozinho, em fantasia. É o que chamamos de amor platônico. Uma fantasia amorosa que se preserva por uma distância. Talvez esse modo de viver o amor tenha alguma relação com o isolamento. Talvez esse modo de amar, por outro lado, preserve o que mais nos encanta no amor: a falta.”

“Se as mulheres se esforçam para agradar homens segundo restritos padrões preestabelecidos por eles, o que pensar sobre a vida erótica dos homens heterossexuais? Minha hipótese é a de que o prazer para eles é, em grande parte, afetado ou mediado pelo poder que creem exercer ao terem junto a si uma mulher que, por sua aparência, não põe em questão os critérios culturais, artificialmente concebidos, do que é um objeto digno de ser desejado. Uma mulher sobre a qual ele pode projetar o que quiser é o prêmio a que ele pode almejar por se comportar como um bom exemplar dos machos. É “um selvagem tristemente domesticado”, diria Lou Andreas-Salomé. Também para eles, como ela escreveu em O erotismo, o apelo erótico tem a ver com novidade e com mudança, mas sinto que isso se dá só na medida em que o “antigo” gastou seu poder de garantir sua conformação ao que sua própria cultura predeterminou: quando perdeu seu valor na competição entre homens e quando deixou de reforçar, como um espelho benévolo, as qualidades que o sujeito acredita ou quer possuir.”

“Em meio à crise generalizada da experiência, a psicanálise traz uma épica da subjetividade, uma versão violenta e obscura do passado pessoal. Ela é, pois, atraente porque todos aspiramos a uma vida intensa; em meio a nossa vida secularizada e trivial, seduz-nos admitir que, num lugar secreto, experimentamos ou experimentávamos grandes dramas; que quisemos sacrificar nossos pais no altar do desejo; que seduzimos nossos irmãos e lutamos com eles até a morte numa guerra íntima; que invejamos a juventude e a beleza de nossos filhos e que nós também (ainda que ninguém saiba) somos filhos abandonados de reis à margem do caminho da vida.”

“Acredita-se que nós seres humanos compartilhamos dos mes­ mos e diversos sentimentos e reações ao mundo, que é o que pos­ sibilita existir entendimento, uns com os outros, e que constitui a fundação da nossa humanidade compartilhada. Na tentativa de combater certos estereótipos dos psicanalistas, como um cientis­ ta desinteressado, insensível, ao invés de um ser humano que tem vida e que respira, alguns terapeutas sugeriram que o analista de­ veria ser regularmente empático com o paciente, ressaltando o que eles têm em comum, para estabelecer uma aliança terapêutica sólida. Embora esses profissionais tenham boas intenções (por exemplo, acabar com a crença da objetividade do analista), as expressões de empatia podem enfatizar a humanidade em que vivem analista e paciente, de modo a encobrir ou superar aspectos humanos que não são compartilhados.”

“A verdade se utiliza da fala para se expressar, mas seu efeito não é da ordem do semblante, é da ordem do real. Então, como algo que é da ordem de um artefato, que é da ordem do semblante, toca no real? Podemos dizer que essa é toda a questão da psicanálise; a partir daquele setting analítico — a psicanálise inglesa usa esse termo do teatro, um set —, mostra-se uma cena em que há uma pessoa que ocupa um lugar, tudo marcado, e interpreta um papel que é o de objeto a — papel que varia a cada análise, a cada analisante. Nós temos um certo grau de improvisação, na verdade é preciso improvisar o tempo todo, mas há uma marcação ali. Mais artificial que uma análise impossível, se paramos para refletir. Você não pode responder, se você já entrou no diálogo já errou, já não é psicanálise. Há uma marcação e você tem que obedecer a certos preceitos determinados pela estrutura: a política do mais-de-gozar, a estratégia dos semblantes, a não resposta à demanda de amor. A posição principal do analista — o não responder, responder com o silêncio — é uma das modalidades de fazer semblante de objeto a, em sua face opaca, silenciosa, fora do simbólico. A queixa habitual do analisante — “Mas eu falo, falo e você não diz nada” — se dá porque ele está acostumado, na cena cotidiana, a falar e ter uma réplica, e a análise não é isso. A análise é antinaturalista e, no entanto, opera. Ao contrário do que podemos dizer, quanto mais artefato, quanto mais claramente não naturalista, mais ela opera em nível do real.”

“Participante do seminário: Sobre a questão do ato que opera como enigma, você acha possível que um sujeito em análise possa se confrontar com algo de fora do setting, por exemplo um filme, que tenha para ele um valor de enigma e que, portanto, desencadeie uma construção em análise e se torne uma verdade? Antonio Quinet: Claro! Porque a obra de arte está no lugar de objeto a para o sujeito. A obra que opera sobre o sujeito, que desencadeia afetos e associações, que divide e que emociona. Podemos dizer que foi a primeira coisa captada pelo primeiro livro de estética do mundo ocidental: a Poética de Aristóteles. Ao abordar a tragédia, ele percebeu a divisão subjetiva no espectador causando um misto de prazer e dor: a catarse dos afetos de terror e piedade e ao mesmo tempo o entusiasmo com a obra de arte. Para que tal objeto ou performance seja efetivamente uma obra de arte é preciso causar a divisão do sujeito. Basta reler Aristóteles com Lacan, pois uma tragédia provoca esses afetos denotando algo que tocou o real do sujeito, ou seja, causou algo que escapa ao próprio sujeito. A obra de arte está nesse lugar de objeto a. Para o analista, é dar nó em pingo d’água estar no lugar de uma obra de arte para desencadear no sujeito suas associações e tudo o mais. Fazendo uma associação com o que você falou, Lacan propõe que a interpretação deve ser poética, deve estar no nível da poesia. E sobre seu lugar de analista, ele diz: “Não sou um poeta, sou um poema”.”

“Não é à toa que Freud trouxe o conceito de lembrança encobridora, que é uma memória que traz em si um esquecimento, encobre alguma coisa. Ela encobre no mínimo o real ou outra associação que Freud, dentro de uma lógica da temporalidade, diz que acontece. Uma pessoa se lembra de uma coisa que aconteceu com ela aos cinco anos pois quer esquecer o que aconteceu aos três anos, dentro da lógica do inconsciente como cronológico. Mas para Freud o inconsciente é uma “des-memória”. Porém, por mais que você se lembre, sempre mantém um esquecimento-base, que é o recalque original.”

“Ao denunciar que o capitalismo é um simulacro, um fazer parecer, um semblante, Marx faz irromper uma verdade: a exploração do trabalho humano nesse falso laço social, que é o discurso capitalista, e a promoção de uma mercadoria como objeto de desejo incondicional. É em torno do dinheiro, ou seja, do capital, que é guiado o eixo de denúncia que reside no fetiche. Há algo mais da ordem do simulacro do que fazer crer que um sapato, uma roupa, um celular, um carro seja o objeto a? Marx denuncia a mercadoria como fetiche e Lacan o coloca no âmago da própria teoria psicanalítica, mostrando que são os objetos que vêm no lugar do objeto a. E a partir do conceito marxista de mais-valia inventa o termo mais-de-gozar, rebatizando com ele o objeto a ao acentuar seu caráter de gozo.”

“Em seu conto “Angústia”, Tchekhov apreende profundamente toda a dimensão do desamparo humano a partir do personagem Iona Ptápoc, cocheiro de uma carruagem puxada por uma eguazinha. Ao longo dessa pequena e profunda história, o escritor russo descreve o sofrimento interminável do cocheiro que acabou de perder o único filho. Uma dor que se transforma em angústia à medida que se amplia a impossibilidade de encontrar quem possa escutá-lo. O que recebe é insultos dos diferentes passageiros da pesada noite fria, reencontrando, a cada nova busca de acolhimento, o silêncio, a solidão e a escuridão – os três elementos que Freud conecta à experiência da angústia. O conto demonstra de maneira radical a necessidade humana da palavra. Como indica nosso personagem, é preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, e o ouvinte deve suspirar e compadecer-se. Isso tudo é fundamental, afirma, porque pensar sozinho e imaginar o filho morto é-lhe insuportável e assustador.”

“Quem quiser aprender o nobre jogo de xadrez a partir de livros logo irá se dar conta de que apenas as jogadas de abertura e as jogadas finais permitem uma representação exaustiva, enquanto a enorme variedade das jogadas que começam a partir da abertura acaba frustrando tal representação. Apenas um estudo aplicado de partidas em que mestres se enfrentaram pode preencher essa lacuna das instruções. Limitações semelhantes a essas parecem ocorrer com as regras que podemos estabelecer para o exercício do tratamento psicanalítico.”

“Nas entrevistas preliminares, é importante, então, no que diz respeito à direção da análise, ultrapassar o plano das estruturas clínicas (psicose, neurose, perversão) para se chegar ao plano dos tipos clínicos (histeria — obsessão), ainda que “não sem hesitação”, para que o analista possa estabelecer a estratégia da direção da análise sem a qual ela fica desgovernada.”

“É preciso dirigir o tratamento. É preciso assumir inteiramente esse papel e, ao mesmo tempo, saber que o objetivo que queremos perseguir, não o atingiremos dirigindo o tratamento. Nós o atingiremos fora dessa direção, fora dessa técnica. Com Lacan, diríamos: ocupar o lugar do semblante do domínio, isto é, o lugar do semblante da direção, o semblante de ser o mestre, sem esquecer que se trata apenas de um semblante. É então que haverá para nós uma ocasião de sermos tocados por uma verdade que seja, ao mesmo tempo, uma verdade para o analisando.”

“O que quer dizer “retificação subjetiva”? Isso significa que intervimos no nível da relação do Eu do sujeito com os seus sintomas. É por isso que, quando da primeira entrevista, e particularmente nas seguintes, parece-me essencial (e insisto muito nesse ponto) discernir bem o motivo da consulta, a razão pela qual o paciente decidiu recorrer a um psicanalista. Eu não deveria dizer “recorrer a um psicanalista”, mas “recorrer a um terapeuta”. Porque, se o paciente solicita uma consulta e se já consultou um psiquiatra, por exemplo, outro psicanalista, ou mesmo se, na infância, seus pais o levaram a um médico, o que importa é o primeiro momento no qual ele veio consultar ou que o levou a consultar. Em outras palavras, o sentido, isto é, a relação do Eu com o sintoma, se decide principalmente na relação com o primeiro gesto, com a primeira decisão de recorrer a um outro. É nesse nível que vamos intervir, produzir, introduzir essa retificação subjetiva. Sempre digo que, na primeira entrevista, há uma demanda maciça por parte do paciente. E é no fim dela que tenho o hábito de lhe dizer: “Bem, vamos parar por aqui a nossa conversa, mas antes eu gostaria de lhe dar a minha impressão, com todos os riscos que isso implica, já que eu não o conheço.” O que significa “a minha impressão”? “Minha impressão” quer dizer dar uma resposta, que consiste em restituir ao paciente alguma coisa da relação que ele tem com o seu sofrimento. Isso é intervir sobre o próprio ponto em que ele o explica, e é levar em conta a maneira pela qual ele o faz, a teoria que ele tem sobre isso, o porque do seu sofrimento e como ele sofre.”

“O amor” — conhecemos a definição de Lacan — “é dar o que não se tem”. Dar o que não se tem quer dizer simplesmente prometer. Dou o que não tenho, quando prometo. Durante esse período, o analisando vive na expectativa dessa promessa aberta, desse amor aberto que a análise significa. Não é uma demanda de amor ao analista. O analista não é o objeto de amor nesse momento. É uma demanda de amor no sentido de uma fala em expectativa. Essa demanda de amor se manterá enquanto o analisando não descobrir que, finalmente, é uma demanda inaceitável. Enquanto isso, a sugestão se instala.”

“Uma coisa é a demanda de amor ser inaceitável; outra é senti-la, experimentá-la, fazer a experiência de ter que revelar o ponto central, o núcleo do Eu, isto é, o ponto no qual o objeto enquanto tal aparece na superfície. É o que, na teoria lacaniana, se pode chamar de “falta a ser”. O sujeito, o analisando, é confrontado não só com a inaceitabilidade da demanda de amor, mas também é confrontado com a falta a ser. Isso quer dizer que o seu ser é uma falta, que seu verdadeiro ser na análise não é ele, o seu Eu: é o que jaz no Eu. O que jaz no centro do Eu é uma falta. É um ponto fundamental, enigmático. É um ponto central, aquele que chamamos habitualmente, na terminologia lacaniana, de objeto “a” ou objeto de Gozo. Nesse momento de seqüência transferencial, nesse momento fecundo, o analista deve silenciar. Deve fazer silêncio e, como sabemos, há várias formas de silêncio. O analista deve fazer “silêncio-em-si” para fazer surgir o Grande Outro. É nesse momento que o analista faz com que surja o Grande Outro. Para que ele surja, é necessário que o analista faça silêncio em si. Se o analista faz ativamente silêncio em si, é ele que dirige o tratamento. Se não o faz, ignora quem”

“O coelho tirado da cartola foi o anticonvulsivante valproato de sódio (Depakote), que recebeu uma patente para uso no tratamento da mania exatamente na época em que as patentes anteriores dos antidepressivos estavam expirando. Assim como a depressão tinha sido ativamente promovida no mercado como um transtorno por parte daqueles que ofereciam uma cura química para ela, agora o transtorno bipolar foi embrulhado e vendido junto com seu remédio. O lítio havia funcionado para alguns indivíduos, e não para outros, mas, sendo um elemento que ocorre na natureza, não podia ser patenteado. O valproato foi inicialmente proclamado como o medicamento mais inteligente e confiável, aquele que finalmente estabilizaria os altos e baixos do sujeito bipolar.”

“Certa vez, contemplando um córrego nos jardins da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a pesquisadora em psiquiatria e escritora Kay Redfield Jamison lembrou-se de uma cena da poesia de Tennyson. Dominada por “um senso imediato e inflamado de urgência”, correu a uma livraria à procura de um exemplar e, em pouco tempo, viu-se com mais de vinte livros nos braços. A imagem inicial da Dama do Lago abriu-se numa espiral, ligando-se a outros temas e títulos, desde A morte de Arthur, de Malory, até O ramo dourado, de Frazer, e a livros de Jung e Robert Graves. Tudo parecia relacionado e, reunido, conteria “uma chave essencial” do universo, enquanto ela “ia tecendo sem parar” a sua rede maníaca de associações.”

“Como se poderia explicar o poderoso sentimento de interligação das coisas que é descrito com tanta precisão e coerência pelos sujeitos maníacos? Qual é, afinal, o meio de vinculação no nosso mundo? A resposta a essa pergunta talvez seja decepcionante em sua simplicidade: é a linguagem. São as palavras, as ideias e as associações entre elas que criam e moldam nossas realidades, e dependemos tanto das ligações quanto da inibição das ligações entre elas para conseguir pensar. Isso adquire o máximo de clareza quando as ligações entre as ideias surgem numa velocidade tal que o sujeito nem sequer pode reduzir seu ritmo ou detê-las. No que a psiquiatria chamava de “fuga de ideias”, um pensamento leva a outro, com persistência brutal e irreprimível.”

“Nas situações sociais, a maioria das pessoas acha que não diz a coisa certa; que, por alguma razão, as palavras lhe escapam. Só mais tarde consegue imaginar o que poderia ou deveria ter dito, no famoso “esprit d’escalier” – só depois de terminar de descer a escada é que ela se dá conta. Mas o sujeito maníaco tem uma experiência diferente. Possui as palavras com que falar. A atriz Patty Duke referiu-se a seu “incrível domínio da linguagem” quando se encontra na fase maníaca. Como disse a acadêmica Lisa Hermsen sobre sua experiência pessoal com a mania, “eu encontrava as palavras e digitava as letras” – um sentimento repetidas vezes ecoado por sujeitos maníacos. No dizer de um de meus pacientes: “As palavras certas estavam bem ali, eu não precisava mais pensar.” E Cheney: “As palavras certas simplesmente dançavam no ar, acima da minha cabeça, e eu só tinha que puxá-las para baixo e deixar que fluíssem pela minha caneta.”

“No entanto, na mania real é comum o impulso de estabelecer ligações ir muito além das convenções da comunicação. Nos livros de memórias de sujeitos maníaco-depressivos, é notável a frequência com que há uma fala súbita e sugestiva que se dirige ao leitor, como se a narrativa pudesse e devesse ser interrompida por um apelo direto ao destinatário. É como aquele momento do filme Violência gratuita, de Michael Haneke, em que um dos homens que aterrorizaram uma família inocente vira-se de repente e se dirige diretamente à câmera. Tais recursos podem ser entendidos como um desdém pós-moderno pelas convenções narrativas, mas será que também não podemos ver neles um eco da necessidade que têm alguns sujeitos têm de apelar para seu público, de confirmar uma cumplicidade ou uma ligação? Quando a atriz Vivien Leigh, presa num agudo episódio maníaco, virou-se para falar diretamente com a plateia do teatro no meio da peça Tovarich, vemos a mesma necessidade de um receptor, a necessidade de criar e afirmar uma ligação com ele.”

“Será que isso também não lança luz sobre a curiosa promiscuidade de muitos sujeitos maníacos? Como assinalou Terri Cheney, “o sexo maníaco não é realmente uma relação sexual. É discurso, é apenas outra maneira de desafogar a necessidade insaciável de contato e comunicação. Em lugar de palavras, eu falava com a pele”. O sexo mantém o receptor ali, bem perto: o maníaco passa de um parceiro para outro como passaria de um interlocutor para outro. Cheney observou de maneira brilhante que a famosa hiperatividade da mania – o sacudir-se, o tamborilar ou bater os pés, o remexer-se – é, simplesmente, um conjunto de formas da pressão para falar, para continuar falando.”

“A concentração exclusiva nos vínculos entre as palavras do maníaco significa negligenciar essa dimensão crucial do efeito que elas têm no receptor. Os saltos envolvem uma excisão dos pontos de suspensão da fala, que são exatamente os momentos que dão à outra pessoa o espaço para responder. Mas o discurso maníaco paralisa o ouvinte, e o momento de responder ou o silêncio que precederia uma resposta não acontecem. Falar mantém a outra pessoa presente, mas dessa maneira muito específica, que tem o efeito de desarmá-la. As palavras exercem sua magia – por um tempo –, imobilizando o receptor e impedindo-o de qualquer resposta real, do tipo que possa trazer o risco de ele largar ou censurar o sujeito maníaco. Não admira que o ouvinte, além de ficar exausto, sinta-se frequentemente manipulado ou controlado. É exatamente isso que distingue a depressão maníaca de outras formas de psicose em que a pessoa pode construir um receptor virtual, distante ou interno. Tem que haver um ouvinte real bem ali, diante dela. No entanto, há algo de tênue, até desesperado, na maneira de o maníaco reter seu interlocutor, como se tivesse de conservá-lo ali a qualquer preço, como um humorista de boate que tem de manter a plateia permanentemente concentrada nele. Será por acaso que a doença maníaco-depressiva é tão comum no mundo dos comediantes?”

“É por isso que, se você observar a plateia do cinema durante a projeção de uma comédia, verá que as pessoas olham não só para a tela, porém umas para as outras, ao passo que, quando é um drama, o olhar permanece fixo na tela. Os chistes sempre envolvem um terceiro, como se o nosso afeto do riso dependesse de mais alguém rir e sancioná-lo. Ao descrever seu primeiro episódio maníaco, um executivo de empresa explicou: “Eu achava extasiante poder fazer as pessoas rirem no escritório. Era capaz de fazer até as pessoas do metrô darem risada. As piadas e suas tiradas finais simplesmente continuavam a surgir, de forma natural, sem parar.”

“RETER UMA PLATEIA evoca um aspecto muito específico da infância, descrito por muitos sujeitos maníaco-depressivos. A mãe, o pai ou outro cuidador primário é alguém que apresenta oscilações de humor, em geral não anunciadas e assustadoras para a criança, que se sente alternadamente largada e adorada, com uma incoerência feroz. Essa gangorra dramática pode ser uma experiência cotidiana ou ocorrer na época do nascimento de um irmão, por exemplo. Em alguns casos, a mãe só consegue continuar próxima do filho quando se mantém uma situação de dependência completa. No momento em que a criança começa a afirmar sua independência, o amor materno desmorona. A estrutura pendular de algumas formas de psicose maníaco-depressiva, portanto, fica literalmente inscrita na criança. Tais rupturas significam que a experiência mais básica dessa criança é a de ser alvo de um grande investimento e, em seguida, alijada dele, num padrão que, mais tarde, ela pode repetir em suas próprias alternâncias de humor, nas quais ora se sente no centro do mundo, ora insuportavelmente abandonada e solitária. Da mesma forma, numa época posterior da vida, o sujeito pode buscar relações de dependência absoluta, como um modo de garantir o amor. Outra pessoa torna-se onipotente para ele, fonte de tudo o que é fornecido, e o mais ínfimo descaso ou frustração agiganta-se num sentimento de rejeição absoluta.”

“O que haveria em comum entre gastar e roubar? Num nível imediato, quando o gasto ocorre sem que haja fundos para bancá-lo, pode-se interpretá-lo como uma forma de roubo, aliás incentivada pelos mercados contemporâneos, que dependem de que as pessoas gastem um dinheiro que não têm. Em outro nível, as duas atividades envolvem tirar algo de um lugar significativo, de uma determinada loja de departamentos ou butique. É como se a pessoa comprasse sem pagar, e é comum os sujeitos maníacos descreverem sua sensação de um mundo de fartura, de suprimentos, um mundo em que as coisas não acabam. Jamison escreveu que, em suas orgias maníacas de compras, “eu não conseguia me preocupar com o dinheiro nem se quisesse. E, assim, não me preocupava. O dinheiro viria de algum lugar; eu tinha aquele direito; Deus proverá.” A paciente de Jacobson dizia que “o mundo é tão rico que não tem fim”. Para Duke, na mania, “vamos ser milionários, e acreditamos nisso”. Nas palavras de um de meus pacientes, ao falar de cigarros, um dia: “O problema do cigarro é que a gente sempre tem mais.” No estado maníaco, o mundo parece generoso e clemente. Está tudo ali para ser tomado e desfrutado. Na verdade, é como se a pessoa fosse despojada de sua própria estrutura sociossimbólica, tanto religiosa quanto econômica. Desaparecem a ética de trabalho que é peculiar ao meio de origem daquela pessoa, o pudor ou a inibição compatíveis com sua cultura, e até, vez por outra, as proibições dietéticas de sua religião. Seu senso de vitalidade e energia parece proporcional a essa perda: à medida que se desfaz das limitações das forças que a moldaram, ela “renasce”, e o mundo parece radicalmente novo e promissor. Mas, assim como a dívida para com a própria origem e história pode se suavizar subitamente no episódio maníaco, ela retorna com força na fase depressiva. Nessa hora, a pessoa fica tão aprisionada que, às vezes, literalmente não consegue se mexer. Quando os amigos bem-intencionados de Adams lhe diziam para sair mais, para procurar fazer umas caminhadas, o que não percebiam era que ele não conseguia nem sequer passar do portão da frente, a tal ponto estava paralisado. Se na euforia maníaca a pessoa pega alguma coisa sem pagar, agora ela paga, sem a menor dúvida. Não há como anular a dívida sem que ela retorne em suas formas letais, incapacitantes.”

“Qualquer situação que envolva violência e ódio pode acionar esse tema da responsabilidade e, com ele, a importância de proteger o Outro de danos. Como disse um paciente: “Não é tanto a agressão, mas o fato de que as pessoas vão pensar que a agressão foi minha.” Existe um horror de ser visto como violento, como se fosse preciso manter a qualquer preço um ideal de pacifismo. Os atos altruístas visam garantir esse ideal, donde qualquer sugestão de hostilidade ou falha pode ser devastadora: confrontaria a pessoa com uma responsabilidade que nunca pode ser inteiramente assumida. Uma das maneiras mais frequentes de salvaguardar os outros é idealizá-los, e é impressionante ver como isso ecoa nos livros de memórias de sujeitos maníaco-depressivos. Ao lermos escritos dos que foram rotulados de “esquizofrênicos”, é comum vermos uma crítica aos sistemas dominantes de valores, ao passo que, nos textos dos maníaco-depressivos, encontramos menos crítica do que endosso.”

“Na construção da personalidade, o instinto de destruição manifesta-se com a maior nitidez na formação do superego . Certo, por seu papel defensivo contra os impulsos irrealistas do id, por sua função na conquista duradoura do complexo de Édipo, o superego consolida e protege a unidade do ego, garante o seu desenvolvimento sob o princípio de realidade e, assim, atua a serviço de Eros. Contudo, o superego atinge esses objetivos dirigindo o ego contra o seu id, desviando parte dos instintos de destruição contra uma parte da personalidade destruindo, fragmentando a unidade da personalidade como um todo; assim, atua a serviço do antagonista do instinto de vida. Além disso, essa destrutividade dirigida para dentro constitui o âmago moral da personalidade adulta. A consciência, a mais querida agência moral do indivíduo civilizado, surge-nos impregnada do instinto de morte; o imperativo categórico que o superego impõe continua sendo um imperativo de autodestruição, enquanto constrói a existência social da personalidade. A obra de repressão pertence tanto ao instinto de morte quanto ao instinto de vida. Normalmente, a fusão de ambos é salutar, mas a obstinada severidade do superego ameaça constantemente esse equilíbrio salutar. Quanto mais um homem controla suas tendências agressivas em relação a outros, mais tirânico, isto é, mais agressivo se torna em seu ego-ideal ... mais intensas se tornam as tendências agressivas do seu ego-ideal contra o seu ego. Levada ao extremo, na melancolia, uma pura cultura do instinto de morte pode influir no superego, convertendo este numa espécie de local de reunião para os instintos de morte. Mas esse perigo extremo tem suas raízes na situação normal do ego. Como a ação do ego resulta em uma '... libertação dos instintos agressivos no superego, a sua luta contra a libido expõe-no ao perigo de maus tratos e morte. Ao sofrer os ataques do superego ou talvez ao sucumbir a eles o ego está enfrentando um destino semelhante ao dos protozoários que são destruídos pelos produtos de desintegração que eles próprios criaram.' E Freud acrescenta que do ponto de vista econômico [mental], a moralidade que funciona no superego parece ser um produto similar de desintegração. É nesse contexto que a metapsicologia de Freud se defronta com a dialética fatal da civilização: o próprio progresso da civilização conduz à liberação de forças cada vez mais destrutivas.”

“As redes sociais trazem fartos exemplos de apaixonamentos que violam a regra genérica da intimidade. Ou seja, em vez de prosperar na conversa lenta que gradualmente se transforma em curiosidade e sedução, as pessoas se apresentam com uma lista de quesitos e predicados a preencher e a serem preenchidos. Ignorância total de que nossos amores passam crucialmente pelos vícios, incongruências e problemas que não conseguimos suportar em nós mesmos, vamos “buscar no mercado” de forma inconsciente. Entreveros, adversidades e conflitos de gosto não são considerados um pretexto para o valor erótico da diferença, e excluímos pretendentes como se estivéssemos em uma entrevista de emprego. Também podemos perceber como uma parte substantiva do discurso de ódio, que grassa nas redes digitais, se organiza em torno de amores não correspondidos, decepções para promessas nunca feitas e ódios a pessoas-tipo que não são o nosso tipo de pessoas narcisicamente amáveis, como nós. A aceleração na resposta desestimula a dialética entre presença e ausência, dificulta a leitura do desejo para além da demanda e facilmente impede que as diferenças criem transferência ou suposição de saber.”

“É importante recordar que Freud, ao considerar a pulsão de morte ineliminável — já que há um quantum de energia pulsional de vida e de morte que não pode ser eliminado — se perguntava: qual seria o destino da pulsão de morte num final de análise? Na sua prática psicanalítica, constatou que a pulsão de morte era melhor apaziguada quando se mantinha bem fusionada à libido, quer dizer, quando a pulsão de morte e a libido se uniam, isso resultava no erotismo, o que reduzia a ferocidade da pulsão de morte, já que seu furor era empregado para sustentar as ganas do desejo sexual. Considerando seriamente essa formulação de Freud, acrescento uma formulação à qual eu mesma só pude chegar depois do meu final de análise: para sustentar qualquer posição vigorosa de desejo, se usa a ferocidade da pulsão de morte, se usa a ferocidade que não está dirigida contra o outro nem contra si mesmo, porém a favor de uma posição decidida de sustentação de desejo. Para que fins? Para os fins da pulsão de vida.”

“A escuta é uma técnica, um método e frequentemente se subordina a uma abordagem ou atitude. Jornalistas, cientistas, artistas, médicos, antropólogos e psicoterapeutas usam a escuta de forma profissional, mas ela está disponível para qualquer um que se disponha e se interesse por relações. Vendedores são escutadores profissionais natos, assim como os palhaços. As atitudes e disposições nas quais o desenvolvimento da escuta ocorre de modo orgânico envolvem um certo interesse e curiosidade pelo outro, a fascinação por história, literatura ou teatro. Frequentemente encontramos entre escutadores uma inclinação para tirar o outro de si mesmo, desorganizar situações ou papéis sociais, por isso às vezes eles podem ser percebidos como provocadores, irreverentes ou bagunceiros. Ou seja, escutadores não se contentam com o funcionamento ordenado do mundo com seus papéis e sua funcionalidade, eles querem saber o que há por trás de tudo. Querem conhecer as coxias, saber como é feito o cenário, quem compôs a música, quem são os atores por trás dos personagens e, afinal, quem está na direção da peça, seja ela cômica ou trágica, dramática ou epopeica, a qual chamamos vida. Escutadores, como detetives policiais, querem descobrir o que há por trás das máscaras, das intenções declaradas, dos afetos explícitos e das moralidades constituídas.”

“O bom ouvinte não vai pegar apenas aquela demanda, aquele sofrimento que está visível em primeiro plano. Vai se ocupar também do que está na periferia, do que muitas vezes não é possível reconhecer muito bem a razão e a causa do sofrimento. Certamente, a escuta envolve a capacidade de se deixar impressionar e de se colocar no lugar do outro. Mas ela prossegue, além disso, como uma investigação sobre como e por que foram escolhidos precisamente aqueles e não outros meios de expressão. Por isso, o problema da escuta, da empatia, não foi inicialmente estudado por psicólogos nem psicanalistas, mas por teóricos da estética. Quando vamos a um museu e nos deparamos com imagens que nos interpelam ou que nos assuntam, é como se fôssemos projetados para o lugar de uma questão. Ou seja, para apreciar uma obra de arte é preciso colocar-se no lugar em que somos a questão que ela nos faz, e ao mesmo tempo na posição em que ela responde às nossas questões. Apreciar uma obra de arte é conversar com ela, incluí-la em nossa conversa e nas conversas que nos antecederam.”

“Ficar longe dos ambientes tóxicos e evitar gatilhos são duas maneiras de controlar a transposição de afetos por meio de sentimentos sociais homogêneos, vigiados e harmônicos, ao modo de paisagens internas e externas de condomínios artificiais. Ocorre que discursos protetivos como esses nos protegem também da angústia que cerca o desencadeamento ou o gatilho amoroso, que é igualmente imprevisível, surpreendente, perigoso e indutor de afetos incontroláveis. Por outro lado, seria difícil pensar em uma forma de vida amorosa sem momentos tóxicos, que envolvessem desavenças, infortúnios, repetições de equívocos e mal-entendidos.”

“Quando o apaixonado é tomado por uma “sensação de verdade”, ele intui a plena realização de seu desejo. Diante do abismo, ou seja, “lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação”, ele vê todos que o cercam situados diante de sua paixão. A paixão demanda provas de amor, signos estáveis e seguros de que não estamos sozinhos. As palavras do amado repercutem em alto volume na alma do amante. O apaixonado sente-se raptado e errante, querendo possuir o impossível. Nunca acreditamos demasiadamente no amor que o outro nos dispensa. Por isso o apaixonado vive entre a nuvem do mau humor e a noite do desespero. A espera, o mutismo, a incerteza da resposta fazem de todo apaixonado um louco em potencial. O sintoma mais comum é a loquela, ou seja, diálogos imaginários sem fim com e contra aquele que se ama. Frequentemente tem ideações suicidas apenas para imaginar a falta que causaria àquele que ama. Ele recorre a informantes, cria ciúmes como cenas de amor, fica vulnerável a fofocas, sente-se ofendido por pequenas faltas do amado. Como resposta ao tormento da paixão, o sujeito começa a transformar afetos, emoções e sentimentos em uma disposição amorosa para a transformação social. Escreve cartas de amor, nas quais admite que pode existir ausência entre eles, além de esconder seus sentimentos e criar filosofias sobre o caráter inexprimível do que sente. Transforma sua desrealização e despersonalização em romances ficcionais. Negocia sua dependência a ponto de circunscrever o acontecimento amoroso e finalmente se perguntar: o que fazer com essa paixão?”

“O amor, porém, assim como o pecado, envolve atos, palavras e pensamentos, e como todo amor depende de ficção e metáfora, a forma como o praticamos é que levanta problemas. Pensar pode – fantasiar também –, obrigar o outro a participar, não. O problema é que as fantasias têm sede de realidade. Tântalo, Prometeu, Sísifo, as Danaides e os demais acorrentados do reino de Plutão só conseguem beber da água da realidade em fontes narcísicas, em cachoeiras repetitivas e em lagos pantanosos. Isso sugere uma dificuldade estrutural para toda forma de amor, representando uma tarefa ingrata quando se trata do processo de desamar alguém. A irrealização do amor, sua imanente virtualidade, sua contingência, que inclui o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, continua a acontecer em nossa fantasia. Em outras palavras amamos também o que “poderíamos ter sido”, assim como temos saudade do que “nunca aconteceu”. É nesse sentido que o amor compreende sempre uma fantasia delirante de liberdade. Essa liberdade é pensada aqui não a partir de um limite exterior – independentemente de leis que permitem isto ou aquilo, e proíbem aquilo e aquilo outro –, mas de um limite interior, formado na experiência singular daquela pessoa com o outro amoroso, inclusive nessas diferentes qualificações do amor.”

“Quer motivo maior para falarmos do que amor e solidão? Falamos porque somos sós e precisamos proferir palavras para dar notícias de nós e receber algo do outro – e também falamos justamente porque nos somos insuficientes a nós e queremos nos dirigir ao outro. Então, falar é isso, usar o vazio da boca para pedir algo que não se sabe bem o que é. Quando pedimos alguma coisa, nunca conseguimos alcançar exatamente o que desejamos, porque aquilo que coincidiria exatamente com o buraco do desejo – pasmem! – não existe. Por isso aprendemos em psicanálise que o desejo é sempre insatisfeito, na medida em que satisfazê-lo inteiramente está fora do plano da criação humana. Nesse sentido, o desejo é indestrutível. O objeto que viria a realizá-lo existe apenas no campo da fantasia.”

“A gente não vive sem criar expectativas. Sem expectativas não há motivos para sair de casa, não escovamos nem os dentes, nem sequer abrimos os olhos. É disso que se faz a vida, de expectativas – um nome para a fantasia, talvez! A gente vive porque espera algo da vida. Ama porque espera algo do ser amado. Trabalha porque espera algo do nosso esforço. Expectativa e esperança têm uma relação etimológica com espera, que é bem o que se aprende a fazer nos caminhos do que chamamos de desejo, em psicanálise.”