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Quote by Ana Suy

“É comum que quando um dos parceiros comece um processo de análise ou de psicoterapia o outro se coloque avesso ao trabalho, como se tivesse ciúme do terapeuta, da analista ou mesmo de Freud. É frequente também certa ideia de que, quando um dos parceiros começa a análise, em seguida termina o namoro, o noivado, o casamento. Daí que a segunda enunciação explica a primeira. De certo modo, se o parceiro sente ciúme do analista, é porque sabe que ele mesmo não sairá ileso do processo – que, a princípio, nem é seu, mas passa a ser, em algum nível. Esse ciúme da análise do outro não é sem fundamento: quem faz análise se separa, sim. Mas se separa do quê? Essa é a questão. Às vezes, inclusive, é preciso se separar para continuar junto. Não se trata necessariamente de um rompimento ou de um divórcio, mas da separação de uma determinada maneira de se relacionar.”

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Work

A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão

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Author

Ana Suy

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“O que eu gostaria de destacar aqui é que, na ânsia de manter o amor supostamente vivo, há quem mantenha o objeto amoroso distante, única maneira de preservá-lo, já que as coisas se gastam. Sabe aquela louça chique que fica guardada para a ocasião especial que não chega? Há quem trate amor como coisa e, assim, não viva a experiência amorosa no laço com o outro propriamente dito, mas sozinho, em fantasia. É o que chamamos de amor platônico. Uma fantasia amorosa que se preserva por uma distância. Talvez esse modo de viver o amor tenha alguma relação com o isolamento. Talvez esse modo de amar, por outro lado, preserve o que mais nos encanta no amor: a falta.”

“Se as mulheres se esforçam para agradar homens segundo restritos padrões preestabelecidos por eles, o que pensar sobre a vida erótica dos homens heterossexuais? Minha hipótese é a de que o prazer para eles é, em grande parte, afetado ou mediado pelo poder que creem exercer ao terem junto a si uma mulher que, por sua aparência, não põe em questão os critérios culturais, artificialmente concebidos, do que é um objeto digno de ser desejado. Uma mulher sobre a qual ele pode projetar o que quiser é o prêmio a que ele pode almejar por se comportar como um bom exemplar dos machos. É “um selvagem tristemente domesticado”, diria Lou Andreas-Salomé. Também para eles, como ela escreveu em O erotismo, o apelo erótico tem a ver com novidade e com mudança, mas sinto que isso se dá só na medida em que o “antigo” gastou seu poder de garantir sua conformação ao que sua própria cultura predeterminou: quando perdeu seu valor na competição entre homens e quando deixou de reforçar, como um espelho benévolo, as qualidades que o sujeito acredita ou quer possuir.”

“Em meio à crise generalizada da experiência, a psicanálise traz uma épica da subjetividade, uma versão violenta e obscura do passado pessoal. Ela é, pois, atraente porque todos aspiramos a uma vida intensa; em meio a nossa vida secularizada e trivial, seduz-nos admitir que, num lugar secreto, experimentamos ou experimentávamos grandes dramas; que quisemos sacrificar nossos pais no altar do desejo; que seduzimos nossos irmãos e lutamos com eles até a morte numa guerra íntima; que invejamos a juventude e a beleza de nossos filhos e que nós também (ainda que ninguém saiba) somos filhos abandonados de reis à margem do caminho da vida.”

“Acredita-se que nós seres humanos compartilhamos dos mes­ mos e diversos sentimentos e reações ao mundo, que é o que pos­ sibilita existir entendimento, uns com os outros, e que constitui a fundação da nossa humanidade compartilhada. Na tentativa de combater certos estereótipos dos psicanalistas, como um cientis­ ta desinteressado, insensível, ao invés de um ser humano que tem vida e que respira, alguns terapeutas sugeriram que o analista de­ veria ser regularmente empático com o paciente, ressaltando o que eles têm em comum, para estabelecer uma aliança terapêutica sólida. Embora esses profissionais tenham boas intenções (por exemplo, acabar com a crença da objetividade do analista), as expressões de empatia podem enfatizar a humanidade em que vivem analista e paciente, de modo a encobrir ou superar aspectos humanos que não são compartilhados.”

“A verdade se utiliza da fala para se expressar, mas seu efeito não é da ordem do semblante, é da ordem do real. Então, como algo que é da ordem de um artefato, que é da ordem do semblante, toca no real? Podemos dizer que essa é toda a questão da psicanálise; a partir daquele setting analítico — a psicanálise inglesa usa esse termo do teatro, um set —, mostra-se uma cena em que há uma pessoa que ocupa um lugar, tudo marcado, e interpreta um papel que é o de objeto a — papel que varia a cada análise, a cada analisante. Nós temos um certo grau de improvisação, na verdade é preciso improvisar o tempo todo, mas há uma marcação ali. Mais artificial que uma análise impossível, se paramos para refletir. Você não pode responder, se você já entrou no diálogo já errou, já não é psicanálise. Há uma marcação e você tem que obedecer a certos preceitos determinados pela estrutura: a política do mais-de-gozar, a estratégia dos semblantes, a não resposta à demanda de amor. A posição principal do analista — o não responder, responder com o silêncio — é uma das modalidades de fazer semblante de objeto a, em sua face opaca, silenciosa, fora do simbólico. A queixa habitual do analisante — “Mas eu falo, falo e você não diz nada” — se dá porque ele está acostumado, na cena cotidiana, a falar e ter uma réplica, e a análise não é isso. A análise é antinaturalista e, no entanto, opera. Ao contrário do que podemos dizer, quanto mais artefato, quanto mais claramente não naturalista, mais ela opera em nível do real.”

“Participante do seminário: Sobre a questão do ato que opera como enigma, você acha possível que um sujeito em análise possa se confrontar com algo de fora do setting, por exemplo um filme, que tenha para ele um valor de enigma e que, portanto, desencadeie uma construção em análise e se torne uma verdade? Antonio Quinet: Claro! Porque a obra de arte está no lugar de objeto a para o sujeito. A obra que opera sobre o sujeito, que desencadeia afetos e associações, que divide e que emociona. Podemos dizer que foi a primeira coisa captada pelo primeiro livro de estética do mundo ocidental: a Poética de Aristóteles. Ao abordar a tragédia, ele percebeu a divisão subjetiva no espectador causando um misto de prazer e dor: a catarse dos afetos de terror e piedade e ao mesmo tempo o entusiasmo com a obra de arte. Para que tal objeto ou performance seja efetivamente uma obra de arte é preciso causar a divisão do sujeito. Basta reler Aristóteles com Lacan, pois uma tragédia provoca esses afetos denotando algo que tocou o real do sujeito, ou seja, causou algo que escapa ao próprio sujeito. A obra de arte está nesse lugar de objeto a. Para o analista, é dar nó em pingo d’água estar no lugar de uma obra de arte para desencadear no sujeito suas associações e tudo o mais. Fazendo uma associação com o que você falou, Lacan propõe que a interpretação deve ser poética, deve estar no nível da poesia. E sobre seu lugar de analista, ele diz: “Não sou um poeta, sou um poema”.”

“Não é à toa que Freud trouxe o conceito de lembrança encobridora, que é uma memória que traz em si um esquecimento, encobre alguma coisa. Ela encobre no mínimo o real ou outra associação que Freud, dentro de uma lógica da temporalidade, diz que acontece. Uma pessoa se lembra de uma coisa que aconteceu com ela aos cinco anos pois quer esquecer o que aconteceu aos três anos, dentro da lógica do inconsciente como cronológico. Mas para Freud o inconsciente é uma “des-memória”. Porém, por mais que você se lembre, sempre mantém um esquecimento-base, que é o recalque original.”

“Ao denunciar que o capitalismo é um simulacro, um fazer parecer, um semblante, Marx faz irromper uma verdade: a exploração do trabalho humano nesse falso laço social, que é o discurso capitalista, e a promoção de uma mercadoria como objeto de desejo incondicional. É em torno do dinheiro, ou seja, do capital, que é guiado o eixo de denúncia que reside no fetiche. Há algo mais da ordem do simulacro do que fazer crer que um sapato, uma roupa, um celular, um carro seja o objeto a? Marx denuncia a mercadoria como fetiche e Lacan o coloca no âmago da própria teoria psicanalítica, mostrando que são os objetos que vêm no lugar do objeto a. E a partir do conceito marxista de mais-valia inventa o termo mais-de-gozar, rebatizando com ele o objeto a ao acentuar seu caráter de gozo.”

“Em seu conto “Angústia”, Tchekhov apreende profundamente toda a dimensão do desamparo humano a partir do personagem Iona Ptápoc, cocheiro de uma carruagem puxada por uma eguazinha. Ao longo dessa pequena e profunda história, o escritor russo descreve o sofrimento interminável do cocheiro que acabou de perder o único filho. Uma dor que se transforma em angústia à medida que se amplia a impossibilidade de encontrar quem possa escutá-lo. O que recebe é insultos dos diferentes passageiros da pesada noite fria, reencontrando, a cada nova busca de acolhimento, o silêncio, a solidão e a escuridão – os três elementos que Freud conecta à experiência da angústia. O conto demonstra de maneira radical a necessidade humana da palavra. Como indica nosso personagem, é preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, e o ouvinte deve suspirar e compadecer-se. Isso tudo é fundamental, afirma, porque pensar sozinho e imaginar o filho morto é-lhe insuportável e assustador.”