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Quote by Christian Dunker

“As redes sociais trazem fartos exemplos de apaixonamentos que violam a regra genérica da intimidade. Ou seja, em vez de prosperar na conversa lenta que gradualmente se transforma em curiosidade e sedução, as pessoas se apresentam com uma lista de quesitos e predicados a preencher e a serem preenchidos. Ignorância total de que nossos amores passam crucialmente pelos vícios, incongruências e problemas que não conseguimos suportar em nós mesmos, vamos “buscar no mercado” de forma inconsciente. Entreveros, adversidades e conflitos de gosto não são considerados um pretexto para o valor erótico da diferença, e excluímos pretendentes como se estivéssemos em uma entrevista de emprego. Também podemos perceber como uma parte substantiva do discurso de ódio, que grassa nas redes digitais, se organiza em torno de amores não correspondidos, decepções para promessas nunca feitas e ódios a pessoas-tipo que não são o nosso tipo de pessoas narcisicamente amáveis, como nós. A aceleração na resposta desestimula a dialética entre presença e ausência, dificulta a leitura do desejo para além da demanda e facilmente impede que as diferenças criem transferência ou suposição de saber.”

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Work

A arte de amar

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Author

Christian Dunker

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“É importante recordar que Freud, ao considerar a pulsão de morte ineliminável — já que há um quantum de energia pulsional de vida e de morte que não pode ser eliminado — se perguntava: qual seria o destino da pulsão de morte num final de análise? Na sua prática psicanalítica, constatou que a pulsão de morte era melhor apaziguada quando se mantinha bem fusionada à libido, quer dizer, quando a pulsão de morte e a libido se uniam, isso resultava no erotismo, o que reduzia a ferocidade da pulsão de morte, já que seu furor era empregado para sustentar as ganas do desejo sexual. Considerando seriamente essa formulação de Freud, acrescento uma formulação à qual eu mesma só pude chegar depois do meu final de análise: para sustentar qualquer posição vigorosa de desejo, se usa a ferocidade da pulsão de morte, se usa a ferocidade que não está dirigida contra o outro nem contra si mesmo, porém a favor de uma posição decidida de sustentação de desejo. Para que fins? Para os fins da pulsão de vida.”

“A escuta é uma técnica, um método e frequentemente se subordina a uma abordagem ou atitude. Jornalistas, cientistas, artistas, médicos, antropólogos e psicoterapeutas usam a escuta de forma profissional, mas ela está disponível para qualquer um que se disponha e se interesse por relações. Vendedores são escutadores profissionais natos, assim como os palhaços. As atitudes e disposições nas quais o desenvolvimento da escuta ocorre de modo orgânico envolvem um certo interesse e curiosidade pelo outro, a fascinação por história, literatura ou teatro. Frequentemente encontramos entre escutadores uma inclinação para tirar o outro de si mesmo, desorganizar situações ou papéis sociais, por isso às vezes eles podem ser percebidos como provocadores, irreverentes ou bagunceiros. Ou seja, escutadores não se contentam com o funcionamento ordenado do mundo com seus papéis e sua funcionalidade, eles querem saber o que há por trás de tudo. Querem conhecer as coxias, saber como é feito o cenário, quem compôs a música, quem são os atores por trás dos personagens e, afinal, quem está na direção da peça, seja ela cômica ou trágica, dramática ou epopeica, a qual chamamos vida. Escutadores, como detetives policiais, querem descobrir o que há por trás das máscaras, das intenções declaradas, dos afetos explícitos e das moralidades constituídas.”

“O bom ouvinte não vai pegar apenas aquela demanda, aquele sofrimento que está visível em primeiro plano. Vai se ocupar também do que está na periferia, do que muitas vezes não é possível reconhecer muito bem a razão e a causa do sofrimento. Certamente, a escuta envolve a capacidade de se deixar impressionar e de se colocar no lugar do outro. Mas ela prossegue, além disso, como uma investigação sobre como e por que foram escolhidos precisamente aqueles e não outros meios de expressão. Por isso, o problema da escuta, da empatia, não foi inicialmente estudado por psicólogos nem psicanalistas, mas por teóricos da estética. Quando vamos a um museu e nos deparamos com imagens que nos interpelam ou que nos assuntam, é como se fôssemos projetados para o lugar de uma questão. Ou seja, para apreciar uma obra de arte é preciso colocar-se no lugar em que somos a questão que ela nos faz, e ao mesmo tempo na posição em que ela responde às nossas questões. Apreciar uma obra de arte é conversar com ela, incluí-la em nossa conversa e nas conversas que nos antecederam.”

“Ficar longe dos ambientes tóxicos e evitar gatilhos são duas maneiras de controlar a transposição de afetos por meio de sentimentos sociais homogêneos, vigiados e harmônicos, ao modo de paisagens internas e externas de condomínios artificiais. Ocorre que discursos protetivos como esses nos protegem também da angústia que cerca o desencadeamento ou o gatilho amoroso, que é igualmente imprevisível, surpreendente, perigoso e indutor de afetos incontroláveis. Por outro lado, seria difícil pensar em uma forma de vida amorosa sem momentos tóxicos, que envolvessem desavenças, infortúnios, repetições de equívocos e mal-entendidos.”

“Quando o apaixonado é tomado por uma “sensação de verdade”, ele intui a plena realização de seu desejo. Diante do abismo, ou seja, “lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação”, ele vê todos que o cercam situados diante de sua paixão. A paixão demanda provas de amor, signos estáveis e seguros de que não estamos sozinhos. As palavras do amado repercutem em alto volume na alma do amante. O apaixonado sente-se raptado e errante, querendo possuir o impossível. Nunca acreditamos demasiadamente no amor que o outro nos dispensa. Por isso o apaixonado vive entre a nuvem do mau humor e a noite do desespero. A espera, o mutismo, a incerteza da resposta fazem de todo apaixonado um louco em potencial. O sintoma mais comum é a loquela, ou seja, diálogos imaginários sem fim com e contra aquele que se ama. Frequentemente tem ideações suicidas apenas para imaginar a falta que causaria àquele que ama. Ele recorre a informantes, cria ciúmes como cenas de amor, fica vulnerável a fofocas, sente-se ofendido por pequenas faltas do amado. Como resposta ao tormento da paixão, o sujeito começa a transformar afetos, emoções e sentimentos em uma disposição amorosa para a transformação social. Escreve cartas de amor, nas quais admite que pode existir ausência entre eles, além de esconder seus sentimentos e criar filosofias sobre o caráter inexprimível do que sente. Transforma sua desrealização e despersonalização em romances ficcionais. Negocia sua dependência a ponto de circunscrever o acontecimento amoroso e finalmente se perguntar: o que fazer com essa paixão?”

“O amor, porém, assim como o pecado, envolve atos, palavras e pensamentos, e como todo amor depende de ficção e metáfora, a forma como o praticamos é que levanta problemas. Pensar pode – fantasiar também –, obrigar o outro a participar, não. O problema é que as fantasias têm sede de realidade. Tântalo, Prometeu, Sísifo, as Danaides e os demais acorrentados do reino de Plutão só conseguem beber da água da realidade em fontes narcísicas, em cachoeiras repetitivas e em lagos pantanosos. Isso sugere uma dificuldade estrutural para toda forma de amor, representando uma tarefa ingrata quando se trata do processo de desamar alguém. A irrealização do amor, sua imanente virtualidade, sua contingência, que inclui o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, continua a acontecer em nossa fantasia. Em outras palavras amamos também o que “poderíamos ter sido”, assim como temos saudade do que “nunca aconteceu”. É nesse sentido que o amor compreende sempre uma fantasia delirante de liberdade. Essa liberdade é pensada aqui não a partir de um limite exterior – independentemente de leis que permitem isto ou aquilo, e proíbem aquilo e aquilo outro –, mas de um limite interior, formado na experiência singular daquela pessoa com o outro amoroso, inclusive nessas diferentes qualificações do amor.”

“Quer motivo maior para falarmos do que amor e solidão? Falamos porque somos sós e precisamos proferir palavras para dar notícias de nós e receber algo do outro – e também falamos justamente porque nos somos insuficientes a nós e queremos nos dirigir ao outro. Então, falar é isso, usar o vazio da boca para pedir algo que não se sabe bem o que é. Quando pedimos alguma coisa, nunca conseguimos alcançar exatamente o que desejamos, porque aquilo que coincidiria exatamente com o buraco do desejo – pasmem! – não existe. Por isso aprendemos em psicanálise que o desejo é sempre insatisfeito, na medida em que satisfazê-lo inteiramente está fora do plano da criação humana. Nesse sentido, o desejo é indestrutível. O objeto que viria a realizá-lo existe apenas no campo da fantasia.”

“A gente não vive sem criar expectativas. Sem expectativas não há motivos para sair de casa, não escovamos nem os dentes, nem sequer abrimos os olhos. É disso que se faz a vida, de expectativas – um nome para a fantasia, talvez! A gente vive porque espera algo da vida. Ama porque espera algo do ser amado. Trabalha porque espera algo do nosso esforço. Expectativa e esperança têm uma relação etimológica com espera, que é bem o que se aprende a fazer nos caminhos do que chamamos de desejo, em psicanálise.”