Quotessence
Home / Authors / Célia Correia Loureiro Biography

Célia Correia Loureiro Biography

Author

Related Quotes

“No entanto era o Vimeiro que não lhe saía da cabeça… O fumo dos mosquetes em disparos contínuos, apenas atrasados pelo recarregamento da pólvora. Os gritos de homens cujos projécteis se lhes iam alojar no ombro. As balas de metralha a silvar-lhes sobre as cabeças. As barbas dos portugueses, já de si escurecidas, manchadas de sangue. Os olhos e as palavras atabalhoadas dos homens de farda castanha que, completamente despreparados para a violência, tinham tombado. E ele vencera – a facção dele, anglo-saxónica, vencera. Vencera e os outros tinham retirado do campo de batalha, deixando-os a mexericar nos bolsos dos soldados que estavam desfigurados, a tentar interceptar alguma missiva importante que algum transportasse ou, simplesmente, como é muito natural ao homem, a tentar distinguir o reluzir de ouro aqui ou ali. Algumas correntes e relógios de patentes mais elevadas fizeram o dia aos vitoriosos, que voltaram a montar valorosamente os seus corcéis e partiram do campo de Batalha, com o brande em mente e o sangue pregado ao linho das camisas. Quanto a ele, continuava a ver a areia do solo árido de verão a espumar ao contacto do sangue quente. Via olhos vítreos e ouvia últimos sopros. Um soldado francês tinha-se-lhe agarrado ao braço e murmurara, apenas, o nome da provável noiva antes de se deixar morrer. Melhor assim, ou um qualquer inglês lhe dispararia uma última bala entre os olhos, que era também o que era esperado de si. Agoniado com o massacre, de boca seca e perguntando-se como poderia Napoleão enviar homens para aquele triste fim… deu-se conta de outra questão. Que faria, efectivamente, a Inglaterra ali? Porquê prestarem-se àquele desconforto, àquela bestialidade, para cumprirem uma velha aliança? Não haveria uma segunda intenção em toda essa generosidade?”

“A Manuela dissonava ao abraçar os antagonismos longe da frente. Enamorava-se sem estorvos por um E Tudo o Vento Levou, com as senhoras apresadas nos estilhaços das escaramuças dos homens. Abalava-se com um Casablanca, em que a subordinação face a outro povo traz um fantasma nostálgico que lamuria o hino da França. Cantarolava, de olhos gotejados, todo o Música No Coração, onde a perfídia nazi desalojava o núcleo central do filme. Tudo isto açucaradamente envolto em histórias de amor intemporais (simplórias), traziam-lhe distensões aos lábios, aparições de dentes alvos, clap clap, prantos de comoção. Para a Manuela a guerra não era mestiere de tecnologia, estratégia, tanques, carnificina, estropiados, tripas e sangue. Para a Manuela, também a guerra era um assunto de mulheres – cartas, lágrimas, saudade. A guerra era o reflexo no semblante da enfermeira, sombrio, inconfessado, a nuvem nos seus olhos, as vigílias de cotovelos no parapeito a aguardar o regresso do soldado. Às vezes a tua mãe resultava-me bastante obtusa. Então fi-la implodir e, como consequência, quase me vi sem ela. Não me tinha dado conta de que a sua força fosse tão marcescível.”