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Quote by Catherine Malabou

“A mulher clitoridiana torna-se a figura da consciência feminina: “para desfrutar plenamente do orgasmo clitoridiano, a mulher deve encontrar uma autonomia psíquica”. A reivindicação da diferença sexual significa menos o confinamento em um esquema binário que a desconstrução do conceito de igualdade. As feministas radicais não procuram ser tratadas como iguais aos homens, mas ser consideradas – e antes de tudo se considerar – elas mesmas como o que são “autenticamente”, diferentes. Reconhecer-se como clitoridiana era na época um verdadeiro coming out. Com a “mulher clitoridiana”, a diferença saía do armário. Para Lonzi, a crítica da construção heteronormativa da sexualidade feminina (ainda não é do ponto de vista temático uma questão de teoria do gênero) também supõe evidentemente uma rejeição da psicanálise freudiana e de sua equação entre clitóris e imaturidade, que transformam as mulheres em “aspirantes vaginais”. A recusa da psicanálise freudiana é semelhante à rejeição da dialética hegeliana. O feminismo, para as mulheres, toma o lugar da psicanálise para os homens. Na psicanálise, o homem encontra as razões que o tornam inatacável […]. No feminismo, a mulher encontra a consciência feminina coletiva que elabora os temas de sua liberação. A categoria de repressão na psicanálise equivale à do senhor-escravo no marxismo [e no hegelianismo]: ambos visam a uma utopia patriarcal que vê a mulher como o último ser humano reprimido e subjugado para sustentar o esforço grandioso do mundo masculino que rompe as correntes da repressão e da escravidão. Questão fundamental da autoconsciência feminista, o clitóris marca doravante a distância irredutível entre submissão e responsabilidade. Mas como evitar, entre mulheres, a reconstituição da potência fálica? A redução da distância? Em seu diário, Lonzi evoca dolorosamente as dificuldades que encontra com Ester, sua companheira, que se sente dominada por ela. Com Ester, só posso me calar. Ela está furiosa consigo mesma e não suporta isso. Agora, ousa dizer o que nunca havia dito, o que era impensável: que, em nossa relação, eu sou o homem e ela é a mulher. É assim que a dicotomia vaginal versus clitoridiana retorna, e nem o feminismo poderá pôr um fim nisso.”

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Work

Il piacere rimosso. Clitoride e pensiero

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Author

Catherine Malabou

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“Ao longo das leituras decisivas de Platão, René Descartes, Georg W. F. Hegel, Friedrich Nietzsche ou Martin Heidegger, Irigaray não determina o destino da mulher na filosofia apenas como um destino mimético, que a condena a imitar os homens quando ela maneja os conceitos. A mulher que pensa não é uma matéria animada, simples cópia do logos masculino que para ela é sempre uma forma. A mulher se afasta desse mimetismo e dessa materialidade por um efeito de espelho irônico e subversivo. Speculum é, assim, uma réplica do estádio do espelho de Lacan, espelho em que nenhuma mulher nunca é refletida. O título Speculum de l’autre femme [Speculum da outra mulher] evoca obviamente o instrumento ginecológico [espéculo] que permite “olhar as trevas”, mas também revela, por um estranho efeito de reverberação, que essa obscuridade está alojada no olho de quem olha. Ao se tocarem, os lábios não deixam ver nada do mistério daquilo que cobrem, se por visível entendermos uma forma saliente que se pode reter tanto com os olhos quanto com as mãos. Quanto à “matéria”, considerada a parte ontológica do feminino, ela não é informe mas informalizável. “Substantivo comum para o qual não se pode determinar a identidade. (A/uma mulher) não obedece ao princípio de identidade.” Mais adiante: “Esse (se) tocar dá à mulher uma forma que indefinida e infinitamente se transforma sem se fechar em sua apropriação”. O informalizável promete ao prazer uma infinidade de metamorfoses.”

“Roland Barthes faz entre o studium e o punctum de uma fotografia. “Reconhecer o studium”, diz Barthes, “é fatalmente encontrar as intenções do fotógrafo, entrar em harmonia com elas, aprová-las, desaprová-las, mas sempre compreendê-las […]”. O studium suscita “uma espécie de educação”. Mas subitamente algo “vem quebrar (ou escandir) o studium. Dessa vez, não sou eu que vou buscá-lo […], é ele que parte da cena, como uma flecha, e vem me transpassar. […] Chamarei então punctum […]. O punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)”. O “clitóris da América”, definido como concentrado de potência, se assemelha a um punctum. Se o corpo da América é um studium, a Califórnia-clitóris seria essa flecha que transpassa, punge, atravessa o grande espaço de “afeto médio”, apenas interessante, do território. Para mim, pensar o clitóris, ou melhor, deixá-lo pensar implica precisamente sair da dualidade studium-punctum, que reconduz à dicotomia passividade-atividade e a seus efeitos desastrosos, tanto para a lógica da virilidade que ela conota, quanto para a recondução ao vaginal e ao clitoridiano que ela desperta. O prazer clitoridiano não é o efeito de um transpassar, de uma penetração nem de uma punhalada. O que quer dizer também que, se as zonas de êxtase do real são também zonas de produção de sentido, este se manifesta sem sobressair, em todos os sentidos do termo. O prazer fica entre o studium e o punctum, na lacuna entre eles; não é nem um nem outro. O clitóris – como o feminino – é relação com o poder, mas não relação de poder. Em todo caso, é nesses termos que o meu pensa. O clitóris é um anarquista.”

“Christ often take the crown off his own head, and puts it upon the head of faith; witness such passages as these, which are frequent in Scripture; ‘Thy faith hath save thee’ Luke 7:50). ‘Thy faith hath made thee whole’ (Matt. 9:22). And no wonder that Christ crowns faith, for of all the graces, faith takes the crown off a man’s own head, and puts it upon the head of Christ.”

“A cumplicidade entre clitóris e anarquia deve-se antes a seu destino comum de passageiros clandestinos, a sua existência secreta, escondida, desconhecida. O clitóris por muito tempo foi também considerado um estorvo, um órgão supérfluo, inútil, zombador da ordem anatômica, política e social por sua independência libertária, sua dinâmica de prazer separado de qualquer princípio e de qualquer objetivo. Um clitóris não se governa. Apesar das tentativas de lhe encontrar senhores – autoridade patriarcal, ditame psicanalítico, imperativos morais, peso dos costumes, carga da ancestralidade –, ele resiste. Resiste à dominação pelo fato mesmo de sua indiferença ao poder e à potência. A potência não é nada sem sua efetuação, seu exercício, como o atesta a aplicação de uma lei, de um decreto, de uma portaria ou mesmo de um conselho. A potência está sempre à espera de sua atualização. Atos, princípios, leis, decretos, por sua vez, dependem da docilidade e boa vontade de seus executores. Ato e potência tecem a tela inextricável da subordinação. O clitóris não está precisamente nem em potência nem em ato. Não é essa virtualidade imatura à espera da atualidade vaginal. Tampouco se dobra ao modelo da ereção e da detumescência. O clitóris interrompe a lógica do comando e da obediência. Não dirige. E por isso perturba. A emancipação precisa encontrar o ponto de inflexão em que o poder e a dominação se subvertam a si mesmos. A noção de autossubversão é uma das noções determinantes do pensamento anarquista. A dominação não pode ser derrubada somente de fora. Ela tem sua linha de fratura interna, prelúdio a sua possível ruína. Toda instância que se mostra indiferente ao par ato-potência exacerba os sistemas de dominação e em consequência revela suas fissuras íntimas. O clitóris se introduz na intimidade da potência – normativa, ideológica – para revelar a pane que sem cessar a ameaça. No meu entender, clitóris, anarquia e feminino estão indissoluvelmente ligados, formam uma frente de resistência consciente das derivas autoritárias da própria resistência. A derrota da dominação é um dos maiores desafios de nossa época. O feminismo é evidentemente uma das figuras mais vivas desse desafio, ponta de lança muito exposta porque precisamente sem arkhé.”

“The Big Bang is an involution event, signifying a transition from a higher state to a lower state. God splinters from a conscious unity into an unconscious plurality of countless individual cells. This is “the Fall”. It was not Man that fell, it was God. The God Mirror split into myriad shards, and now they all have to be fitted together again, so that God can once again see himself reflected and know exactly who he is. The evolution of the Cosmos is designed to achieve exactly this. At the Big Bang, God totally loses consciousness. We might even say that God dies. It then has to resurrect itself, which equates to completely restoring consciousness.”

“We are being inexorably drawn in by a Final cause – the Omega Point – divinity. Divinity = perfect symmetry = the total, flawless alignment of every monad in the Singularity, which equates to the resetting of every monad and the end of a cosmic cycle. This is the moment of Divine Suicide – when all the Gods die. This is Ragnarok. This is Götterdammerung. All the gods must perish. Each cyclical universe must die. Scientists talk of the Heat Death brought about by the Second Law of Thermodynamics. There’s simply no way out.”

“I remember my dad told me a story about a gifted composer. That story has haunted me ever since. At the age of 23, the young man wrote his first and last symphony. He knew it was a masterpiece. Nothing else he ever did would be as good. When he finished the final note, he got up from his seat. He looked in a mirror. He was a muscular, fit young man, very handsome. He took a razor and slit his throat. My dad said he couldn’t listen to that music without crying. In the Lazar House, Danny and I found ConX. At last we understood . When the supreme moment of your life has come, why go on? ConX is perfection. It delivers your once-in-a-lifetime moment – your death. Lacrimae rerum.”