“MORTE DO VIZINHO Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar e seu corpo caiu no playground nesta ensolarada manhã de verão. Estava com depressão, dizem. Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor. Sei que escrevia sobre Freud. Seu corpo ainda está lá em baixo. Se eu tivesse ido à janela há pouco o teria surpreendido em pleno voo e lhe estendido a mão. Estendo-lhe, tardio, o poema que não interrompe a queda mas é o gesto possível que antecede o baque.” Suicidio Book:Textamentos Source: Textamentos
“ENTREGA Abandonar o corpo à pessoa amada para que faça dele o que quiser. Não opor qualquer resistência entregar-se natural, suavemente. O outro sabe as veredas como o rio desce encostas para seu gozo no mar. Abandonar o corpo ao outro para que invente, projete pontes de suspiros, liberte seus demônios e poemas e se converta em anjo num ruflar de penas. Abandonar o corpo à sorte alheia fundida à própria sorte, dissolver-se no corpo alheio como quem na vida, dissolve a morte.” AmorPaixao Book:Textamentos Source: Textamentos