Quotessence
Home / Books / Escatologia - Morte e Vida Eterna

Escatologia - Morte e Vida Eterna

Book by Bento XVI · 5 quotes · Reino, Corpo, Cristo

Filter quotes by topic

Escatologia - Morte e Vida Eterna Quotes

“A morte deve ser privada de seu caráter como lugar de incursão do metafísico; sua banalização deve banir a questão sinistra por ela colocada. Schleiermacher falou, certa vez, do nascimento e da morte como "perspectivas" por meio das quais o homem vislumbra o infinito. Mas justamente esse infinito põe em questão seu caráter ordinário, o que faz com que o homem procure bani-lo: a repressão da morte é mais efetiva quando a morte foi naturalizada. A morte deve tornar-se tão coisificada, tão ordinária, tão pública, que nela não reste mais nenhum resquício de questão metafísica. Isso tudo tem consequências decisivas para a relação do homem consigo mesmo e com a realidade em sua totalidade. A ladainha de Todos os Santos expressa a disposição do fiel cristão diante da morte, na seguinte prece: A subitanea morte, libera nos, Domine - "Livrai-nos, Senhor, da morte precoce e inesperada". O arrebatamento súbito, sem que se esteja preparado, munido para enfrentá-lo, aparece como o perigo do homem, do qual ele quer ser salvo. Seu desejo é o de trilhar em plena consciência o último trecho do caminho; ele quer morrer por si mesmo. Se hoje resolvessemos formular uma ladainha dos não fiéis, sem dúvida a prece seria o inverso: "Senhor, dá-nos uma morte repentina e inesperada". A morte deve chegar repentinamente, sem dar tempo para pensar nem sofrer. Aqui fica claro, primeiramente, que a anulação plena do temor metafísico não foi bem sucedida; a pretensão era a de ter pleno controle sobre a própria morte, de preferência, produzindo-a por si mesmo, fazendo-a desaparecer como questão que supera a técnica e que diz respeito ao ser humano como tal. A importância que se confere à questão da eutanásia baseia-se no fato de que é preciso anular a morte como fenômeno que foge ao meu controle, substituindo-a pela morte técnica, a qual eu mesmo não necessito morrer. É preciso fechar a porta à metafísica, antes que ela consiga entrar.”

“Mateus fala do "Reino dos Céus", ao passo que Marcos e Lucas falam do "Reino de Deus". O significado é o mesmo nos dois casos. Por trás da versão de Mateus encontra-se a regra linguística judaica de, por reverência à grandeza da palavra, não empregar o nomede Deus, nem tampouco o conceito de "Deus", mas referir-se a ele apenas por meio de circunlóquios. Céus representa, por tanto, uma simples paráfrase para Deus. Isso é importante, porque mostra que Mateus, assim como Marcos e Lucas, não se refere a algo situado primariamente no além; não se trata do além, mas de Deus enquanto agente pessoal. Essa observação é reforçada se acrescentarmos que, no uso judaico, a palavra que normalmente traduzimos como Reino não significa uma esfera de governo, mas uma realidade ativa, tal como as palavras "domínio" ou "comando". Assim, o termo "Reino de Deus" indica o domínio de Deus, seu poder vivo sobre o mundo. A afirmação "o Reino de Deus está próximo" pode ser traduzida como "Deus está próximo". Ao utilizar esse termo, Jesus não se refere a uma realidade celeste, mas a algo que Deus está fazendo e fará na Terra.”

“Se o cristianismo deve ser interpretado como estratégia da esperança, devemos perguntar: qual esperança? O reino de Deus não é um conceito político e, por isso, tampouco é um critério a partir do qual se possa construir uma práxis política ou uma crítica de certas ações políticas. A realização do reino de Deus não é um processo político, e concebê-lo desse modo significa falsificar tanto a política como a teologia. O resultado disso é o surgimento de falsos messianismos que, por sua própria essência, e a partir da lógica interna das pretensões messiânicas, desembocam nos diversos tipos de totalitarismo.”