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Manuel Alves Quotes

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Famous Manuel Alves Quotes

“— A liberdade não é um direito absoluto, Gervas. Fosse essa a realidade, todas as vontades seriam soberanas sobre si mesmas e todos os poderes estariam nivelados pela mesma medida. Não haveria imposições, e nenhuma língua humana teria lugar para o conceito de escravidão. A liberdade é um privilégio relativo. O prémio de quem se encontra nas circunstâncias de exercer a sua vontade sobre todas aquelas que lha recusariam, dada a oportunidade.”

“— A subversão do raciocínio lógico, Wulfric, é um quebra-cabeças de facilidade ridícula. Suspeito seriamente que a Humanidade teria cultivado a religião mesmo sem eu ter lançado as sementes. Eles precisam de acreditar em coisas inacreditáveis, uma fé da qual se sintam merecedores, para justificarem as circunstâncias inacreditáveis que propiciaram a origem da vida. Precisam da grande mentira que lhes dá sentido à ignorância: a crença de que tudo foi criado para eles.”

“Londres era a velha feiticeira que não morria. Que rejuvenescia em vez de envelhecer. Mas, em temperamento, permanecia o mesmo lugar que chamava a si os dias escuros de um Inverno interminável que se abatia sobre as horas do meio-dia como crepúsculo antes de tempo. Era a árvore milenar que apodrecia lentamente pela raiz com a humidade que chupava do Tamisa. As ruas da Londres moderna lutavam por receber mais luz. O centro da cidade crescera com a luminosidade do vidro e acabaria por expulsar a opacidade suja da pedra. Já não havia paredes que respeitassem a privacidade de quem habitava os edifícios. Os segredos tinham de ser mais cuidadosos se queriam existir. Era nas ruas antigas, onde as paredes de pedra ainda impediam a passagem da luz e a curiosidade dos olhares, que os segredos se refugiavam. Era nos edifícios centenários que moravam as recordações que queriam esconder-se, os segredos inconfessáveis, os demónios mais abomináveis e os fantasmas que não queriam desaparecer. Era lá, nas ruas muito mais velhas do que os nomes actuais que as identificavam no GPS, nas suas casas de paredes escuras, que todos se escondiam. Os que viviam e os que queriam voltar a viver.”

“Desceu o olhar e perdeu-o na dança das chamas da lareira, um cansaço de alma que minou as forças. A consciência não era fardo que o derrotasse, há muito que não, mas assumia formas incómodas que a tornavam difícil de carregar. Carregar pessoas mortas era fácil. Eram vazias. Não se mexiam nem dificultavam os movimentos. Carregar pessoas vivas é que se tornava difícil. Estavam cheias de vida. Debatiam-se com milhões de intenções e desequilibravam o passo. Tinha nos ombros o peso de todas as pessoas que ainda respiravam no mundo.”

“— A verdade, se é que existe uma, é a de que há um entendimento antigo entre os dois Lados. — Que entendimento pode haver entre o Bem e o Mal? Wulfric sentou-se no cadeirão, observou Gervas por um instante e soprou um riso pouco divertido. Invejava a ingenuidade de uma vida breve. — Equilíbrio, Gervas. Um estado apenas possível se ambos os Lados fizerem concessões. O Bem e o Mal não existem para além de conceitos filosóficos, a dualidade de interpretação para a mesma coisa. Consciência.”

“Vamos dotar uma espécie de inteligência complexa. Vamos atribuir-lhes almas dotadas de autoconhecimento. Vamos deixar os animais pensar, mas não demasiado. Não queremos que se ponham com ilusões de avaliar a própria existência ao mais elevado nível, o seu lugar no Universo e consequente audácia de presumirem que está em seu poder a determinação do próprio destino. E depois, de um momento para o outro, decidiu cessar a interferência directa e deixou-os entregues às probabilidades do livre arbítrio. Para mim, foi a última grande extinção. A da minha paciência.”

“A energia modeladora dos afectos é um dos pilares fundamentais da estrutura do Universo e da sua linguagem. Somos o que sentimos, porque o que sentimos define a nossa percepção da existência. E haverá circunstâncias de desespero, nas quais acreditaremos que sem sentir não somos. (...) A nossa existência é definida em partes iguais por aquilo que sentimos e não sentimos. Sem alguns sentimentos, podemos ser incompletos mas somos. Cortar laços afectivos é um sacrifício ao qual, a dada altura, todos somos obrigados.”

“Esfregou as duas faces do medalhão entre o polegar e o indicador. Textura macia, porosidade suave que aqueceu ao toque como pele viva. Aproximou-o do nariz e cheirou. O aroma quente de coração acabado de arrancar do peito. Abriu a boca e susteve a respiração como criança diante de uma colher de sopa cheia de óleo de fígado de bacalhau. Trincou o rebordo quase mole e saboreou os átomos nascidos da morte de estrelas. Uma boca cheia de coração podre temperado com vermes. O contacto directo era um paradoxo de sensações, a insanidade de desejar algo que provocava repulsa intolerável. Não tinha de voltar a tocar o metal, e muito menos de o cheirar e provar, mas a tentação do fascínio exercido pela Cativa continuava vinculada ao medalhão.”