“Joaquim Heliodoro ficou surpreendido com o seu próprio desinteresse pelo mistério dos Teulier e da escada secreta e, ao comparar o alívio resultante de tal desinteresse com o sentimento de convalescença feliz que experimenta um viciado quando consegue abdicar do seu vício, ao menos momentaneamente, julgara localizar na curiosidade o coração escondido da sua psique, e na fantasia ou na narração o seu mecanismo de funcionamento.” MistérioFantasiaCuriosidadeNarração Book:Hotel Source: Hotel
“Os prazeres privados e de certo modo solitários para os quais criara uma arquitectura dependiam a tal ponto do dispositivo arquitectónico que se podia dizer que a máquina se tornara mais importante do que aquilo que produzia, ou, como sucede nas religiões iconófilas, as imagens fixavam mais fortemente a fantasia e a fé dos crentes do que os valores imateriais que deveriam representar, uma analogia cuja ascendência filosófica, de Feuerbach e Marx, Joaquim Heliodoro ignorava tão completamente quanto o desenvolvimento que fora imprimido à ideia por Freud e pelos seus seguidores, ao discutirem o conceito de objecto-fetiche, primeiro como substituição de um objecto ausente, depois como fixação num objecto presente mas dotado de um significado libidinal pela sua utilização. Joaquim Heliodoro sabia muito pouco destas coisas, mas, enquanto poeta, não queria que o desvelamento dos seus fetiches o fizesse despertar.” FantasiaPsicanálisePrazerArquitetura Book:Hotel Source: Hotel