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Vergílio Ferreira Books

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Pensar

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Aparição

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Cartas a Sandra

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Para Sempre

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Related Quotes

“Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez, se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte. Viriam a chamar-me «mórbido», «doentio». Porquê? Mais real do que o nascer era o morrer. Porque quem nasce é ainda nada. Mas quem morre é o universo, a pura necessidade de ser. Um homem só é perfeito, só se realiza até aos seus limites, depois de a morte o não poder surpreender. Não porque a tivesse decorado como um gato-pingado, não porque a tivesse esquecido, mas por tê-la incorporado na plenitude da vida.”

“Lembro-me é de quando na nossa primeira noite eu te disse que te amava e tu disseste também te amo. Hei-de lembrar-me decerto ainda de quantas outras palavras me disseste. Mas agora quero ouvir apenas essa tua palavra ardente em que toda a vida se me consumiu. E do sim gentil no pátio da Universidade e em que tudo começou. Também te amo. Sim. E é estranho como uma vida inteira se me resuma a uma palavra. Possivelmente por ser a única a dizer tudo o que valeu a pena saber.”

“Segundo certo mito, cada qual procura no amor a outra metade que lhe falta. Assim é. Somente essa metade, no amor como em tudo o que se procura, é sempre inalcançável. Ter o que se procura está por vezes ao nosso alcance. O que não está nunca ao nosso alcance é ter o que se procura, depois de se alcançar. Mas só o que procura depois de se ter é que vale a pena. O resto é derrota de todas as vitórias. Só que a vitória que não se alcança é uma derrota a dobrar.”

“(…) — Não sou capaz. Há uma barulheira infernal no mundo, queria entender uma palavra só uma palavra que ficasse em mim e eu me reconhecesse nela. Há tanta palavra bela, deve haver ainda. Não a distingo. O mundo concentrava-se nelas e elas diziam-no e ele era verdade. É um falatório ensurdecedor, não entendo nenhuma. Lembro-as ainda numa memória antiquíssima. Apuro o ouvido, nesta tarde opressiva, lembro-as. Falavam de amor e justiça e Deus e paz, não tenho nenhuma aqui. Sandra. Querida. Tu és uma «moralista» por falta de coragem. Tens o horizonte curto por prudência. Andas à procura do que te sirva como uma farrapeira pelos caixotes do lixo. Qualquer idiota te impressiona, logo que entre nas tuas regras. Não tenho regras, eu — como querias que tivesse regras? Regras tem-nas o cavalo com os arreios. Descolei da vida, porque tudo se me pôs de permeio. Estou só e sem remédio. Agora é aguentar. Descolei da vida, nunca pude colar-me bem.”

“A força da nossa vontade tem que ver com a vontade da nossa força. Porque a verdade é o que é pela sua justeza, mais o músculo anterior de quem a enuncia. Por isso é tão incompreensível a tolerância na juventude como a intolerância na velhice. Assim, a intolerância é um sinal de juventude de se ser um homem firme como na velhice é um sinal de se ser taralhouco. Assim a democracia não é o triunfo da juventude, a não ser como um terreno é o triunfo do que lá se cultiva. Porque a democracia não é uma “ideologia”, mas o caldo em que todas elas se podem desenvolver. Assim o que melhor a defende é que as ideologias perderam a semente do serem. Mas o que desse modo melhor a define a democracia na sua estabilidade e defesa contra o que a ameace, não é o convívio das várias ideologias, mas a indiferença em face de todas elas. Como na entropia, o regime que nos espera no limite do esperar, está para lá da democracia porque é a ausência de qualquer um. O homem não vai suicidar-se porque a vida sem razão não é razão para que o suicídio valha a pena. Honestamente, o homem vai continuar a morrer de “morte natural”. Mas talvez por inanição. Ou simplesmente de tédio, enquanto não achar um motivo que não o seja. E o tédio não se trata na psiquiatria, mas num sono em que se apodreça de bolor.”