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Quote by Adilson José Moreira

“Certos autores identificam três tipos de microagressões: microassaltos, microinsultos e microinvalidações. O primeiro designa um ato que expressa atitudes de desprezo ou de agressividade de uma pessoa em relação a outra em função de seu pertencimento social. Isso pode ocorrer por meio de falas ou comportamentos físicos que pressupõem uma diferença de valor entre pessoas; eles geralmente são conscientes e propositais, sendo então expressões de estereótipos negativos em relação ao outro. Estamos aqui diante daqueles indivíduos que evitam interações sociais com minorias, que não tratam minorias com a mesma cortesia que dispensam a pessoas do próprio grupo. Os microinsultos são formas de comunicação que demonstram de maneira expressa ou encoberta uma ausência de sensibilidade à experiência, à tradição ou à identidade cultural de uma pessoa ou um grupo de pessoas. Microinsultos podem ser não propositais, embora sejam manifestações de um sentimento de superioridade que uma pessoa sente em relação à outra por fazer parte do grupo dominante. Então, microinsultos decorrem de valorações culturais que atribuem importância distinta a grupos sociais e suas vivências de opressão ou das tradições culturais. Eles também podem assumir a forma de mensagens ou representações culturais derrogatórias quando símbolos ou ritos sinalizam desprezo por membros de grupos minoritários. O terceiro tipo, as microinvalidações, ocorre quando sujeitos deixam de atribuir relevância às experiências, aos pensamentos e aos interesses de um membro específico de uma minoria. Por exemplo, o indivíduo atribui valor a pessoas de sua própria raça quando falam sobre situações de estresse emocional, mas deixa de fazer o mesmo quando minorias afirmam que sofrem mentalmente em função de tratamentos discriminatórios. Parte-se do pressuposto de que a experiência da pessoa tem natureza diferente da que ela percebe, o que acontece, por exemplo, quando homossexuais contam casos de discriminação. A desconsideração da seriedade do relato desses indivíduos tem sido frequentemente utilizada como estratégia para negar a relevância da homofobia.”

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Work

Racismo Recreativo

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Author

Adilson José Moreira

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“A identidade social adquire significado especial naquelas situações em que as pessoas classificam a si mesmas a partir de categorias que as identificam como membros de grupos específicos. Ela se tornará relevante em função do contexto no qual elas se encontram, e isso significa que as diversas situações permitam às pessoas estabelecer comparações com outros grupos, principalmente por meio de avaliações positivas de seu grupo em relação a outros. Esse mecanismo é particularmente relevante para analisamos expressões de humor derrogatório. Para os autores dessa teoria, esse tipo de humor permite aos membros de um determinado grupo manter distinção social por meio da ênfase em elementos identitários relevantes. O humor hostil cumpre então uma função importante: preservar a distinção social positiva de um grupo em relação a outro por meio da ênfase nos aspectos negativos dos que são representados em expressões humorísticas. Isso ocorre a todo momento, mas principalmente quando o avanço dos direitos de minorias ameaça desestabilizar o sentimento de superioridade. Esse estado de coisas aumenta a solidariedade entre os membros do grupo dominante, além de permitir que o próprio indivíduo mantenha uma percepção positiva de si mesmo.”

“É importante termos em mente que o humor racista não é apenas um meio de divulgação de estigmas referentes a membros de minorias raciais. Em última instância, ele tem o propósito de afirmar a ideia de que os membros do grupo racial dominante são os únicos atores sociais merecedores de respeito, de que são os únicos atores sociais competentes. Dessa forma, o humor racista tem um objetivo importante: convencer os indivíduos de que os arranjos sociais só podem ser preservados se pessoas brancas forem mantidas em posições de poder. Essa afirmação está baseada em um argumento muito simples: piadas racistas são um tipo de mensagem, e como tal elas transmitem uma pluralidade de sentidos. Uma pessoa branca que procura degradar negros por meio do humor racista está dizendo que eles são inferiores, mas também está afirmando que brancos são necessariamente superiores a eles. O humor racista não é apenas um veículo de expressão de condescendência ou de agressividade, é também uma forma encontrada pelas pessoas brancas para defender a posição privilegiada que ocupam, razão pela qual não podemos ignorar seu caráter estratégico.”

“Como tem sido afirmado por diversos estudiosos, a cordialidade brasileira opera como um dispositivo discursivo que pretende encobrir a natureza hierárquica das interações raciais entre negros e brancos nesta sociedade. A natureza assimétrica delas indica que essa suposta cordialidade permanece apenas quando as diferenças de status entre negros e brancos estão claramente mantidas. Quaisquer alterações a essa ordem, quaisquer conflitos provocam reações racistas imediatas. Mais do que isso, a estratégia do amigo negro ignora o aspecto aversivo e simbólico do racismo. Pessoas brancas podem conviver socialmente com negros, podem defender a igualdade formal entre as raças, podem até mesmo ser casadas com pessoas negras, mas isso não significa que elas não sejam racistas. Estigmas raciais circulam socialmente e influenciam a percepção dos indivíduos, motivo pelo qual o fato de pessoas terem parentes ou amigos negros não impede que elas tenham atitudes racistas ou que sejam racistas. Além disso, a análise da injúria racial não deve ser analisada apenas a partir da motivação do acusado, mas também a partir do dano causado à vítima.”

“Mensagens de conteúdo discriminatório dirigidos a um indivíduo específico podem gerar danos significativos para ele. Um incidente racista como uma piada que reproduz estereótipos de natureza negativa gera alterações físicas imediatas na pessoa, como aumento da pressão sanguínea, mudança do padrão de respiração e comportamentos agressivos. Tendo em vista o fato que estereótipos negativos sobre minorias atuam de forma incessante dentro do nosso universo cultural, outros problemas podem ocorrer: baixa autoestima, diminuição da aspiração pessoal e comportamentos depressivos. Estudos sugerem que certas doenças particularmente comuns entre grupos minoritários, como alterações de pressão cardíaca e também de diabetes, estão associadas ao estresse emocional devido à exposição a tratamentos discriminatórios. Vemos então que os danos psicológicos decorrentes de tratamentos discriminatórios legitimados por estereótipos são significativos. Eles incluem medos patológicos e retraimento social. O indivíduo faz todo o possível para evitar as situações que provocaram estresse emocional, o que torna a vida em sociedade uma fonte de ameaça constante. Essas pessoas podem desenvolver um sentimento de desconfiança permanente em relação a membros dos grupos dominantes, algo muito grave, uma vez que ela está em contato com eles todo o tempo. Mas algo ainda mais problemático pode ocorrer, porque essas pessoas podem internalizar o ódio expresso nas representações racistas e procurar se afastar do próprio grupo social, o que significa se afastar de si mesma. Outros indivíduos recorrem a meios problemáticos para reagir ao problema do racismo, fazendo uso de drogas ou desenvolvendo os mais diversos sintomas psicossomáticos. Desgraçadamente, a consciência de que nunca serão respeitados compromete seriamente o desenvolvimento psicológico. As pessoas podem responder a estereótipos racistas de forma agressiva ou então passiva, sendo que nos dois casos os danos psicológicos são significativos.”

“O sentimento de fealdade é reverberação corporal de humilhação racial: sinto-me cada vez mais feio à medida que sou cada vez mais maltratado e abordado como inferior. O encolhimento da beleza vem sempre acompanhado de encolhimento moral: o corpo feio é o corpo submisso, pode tornar-se até aversivo quando demais intimidado. Acrescente-se que é tênue a linha de licenciosidade que separa o corpo usado e o corpo abusado: a exploração econômica dá facilmente em exploração sexual. É porque houve resistência que a beleza dos pretos é comerciada: a exploração mata ou explora o que não tenha conseguido matar. O desprezo político derrota o corpo ou vira cobiça do corpo não derrotado.”

“Ésta (emocracia) podría definirse como un tipo de vida común en la que todo lo que importan son las emociones, específicamente sentirse bien con lo que se dice y se hace, procurando no ofender a nadie que se declare víctima y, adicionalmente, como en las sociedades del tabú, autoflagelarse públicamente por cualquier conducta realizada en cualquier momento de la vida que se pueda que se pueda subjetivamente considerar lesiva de esas emociones.”