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Quote by Milan Kundera

“Jean-Marc ergueu-se para ir buscar a garrafa de conhaque e dois copos. E, depois, de uma golada: - No fim da minha visita ao hospital, ele começou a contar recordações. Recordou-me aquilo que eu teria dito quando tinha dezasseis anos. Nesse momento compreendi o único sentido da amizade tal como hoje é praticada. A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento da sua memória. Lembrar-se do passado, trazê-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para conservar, como se costuma dizer, a integridade do eu. Pare o eu não encolha, para que mantenha o seu volume, é preciso regar as recordações como as flores de uma vaso, e essa rega exige um contacto regular com testemunhas do passado, isto é, com amigos. Eles são o nosso espelho, a nossa memória; não se exige anda deles, apenas que de vez em quando puxem o lustro a esse espelho para que nos possamos mirar nele. Mas estou –me nas tintas para o que fazia no liceu! O que sempre desejei desde a primeira juventude, talvez desde a infância, foi algo completamente diferente: a amizade como um valor acima de todos os outros. Gostava de dizer: entre a verdade e o amigo, escolho sempre o amigo. Dizia-o por provocação, mas pensava-o a sério. Hoje sei que essa máxima era arcaica. Podia ser válida para Aquiles, o amigo de Pátroclo, para os mosqueteiros de Alexandre Dumas, até ao Sancho, que apesar dos desacordos era um verdadeiro amigo do seu amo. Mas já não o é para nós. Vou tão no meu pessimismo que hoje posso preferir a verdade à amizade.”

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Milan Kundera
Milan Kundera

Milan Kundera is a renowned Czech-French writer known for his profound psychological insights and unique narrative techniques. His works often explore themes of personal freedom, love, morality, and existentialism, with notable titles including 'The Unbearable Lightness of Being' and 'The Joke'. more

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“A amizade foi, por muito tempo, uma virtude moral, uma das maiores. Isso só mudou com o nascimento da sociedade capitalista e, com ela, do individualismo e da competição. “A sociedade capitalista considerava a amizade como manifestação de ‘sentimentalismo’; portanto, como uma fraqueza de espírito completamente inútil e até nociva para a realização das tarefas de classe burguesas”, diz Kollontai (1982) em seu texto. O capitalismo e o patriarcado atribuíram ao amor o mesmo princípio de propriedade que regula o modo de vida em nossa sociedade até hoje. Amar, então, tornou-se sinônimo de posse: é preciso possuir o coração do ser amado. O amor nessa configuração perde sua amplitude e passa a ficar restrito às relações conjugais e familiares.”

“Para conhecermos o amor, primeiro precisamos aprender a responder às nossas necessidades emocionais”, diz bell hooks (2006, p. 6). Muito foi ensinado às mulheres sobre o amor, muito é exigido das mulheres em relação ao amor, a diferença entre nós e os homens nesse quesito é que, enquanto os homens foram ensinados desde cedo a amarem a si, as mulheres desde sempre foram ensinadas a amar os homens no lugar de si mesmas. Neste sentido, ter amigas faz parte do cuidado de si, pois assegura à mulher, através do processo de fala e escuta, traçar os caminhos de construção da sua subjetividade, o que lhe permitirá ressignificar a realidade à sua volta e a própria ideia que tem de si mesma. Disse Espinosa (2008) que “o corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras não tornam sua potência de agir nem maior nem menor”. A amizade torna maior a nossa potência de agir. Não é por acaso que uma das primeiras coisas que um abusador faz em um relacionamento abusivo é tentar afastar a mulher de suas amigas. O abusador sabe que, na maior parte das vezes, é através delas que a mulher poderá tomar consciência não só do abuso, mas de seu valor, já que muitas mulheres se mantêm em uma relação abusiva em função de uma construção psíquica que historicamente lhe coloca na posição de objeto do sadismo alheio.”

“– Luna, você não devia ter dito em voz alta “o que pode dar errado?” – Zoey murmurou. – Tudo bem, foi uma fala minha idiota. – Ainda mais quando toda hora alguém diferente quer te matar – completou Dax. – É, tem isso... – Soltei um longo suspiro que durou alguns instantes em um silêncio inquieto. – Você ainda vai ser minha sentença de morte – ele resmungou.”

“Eles o amavam? Ou ele era extremamente ridículo? Talvez ele devesse mudar de turma. Talvez não estivesse errado quando se decidia em fazer algo que não sair com eles. (...) Eles pareciam todos tão infelizes com suas vidas. Talvez isso fosse um sinal de que devia se dedicar mais a sua carreira de escritor, que tinha protelado demais até aqui e agora era hora de recuperar o tempo perdido. Devia ficar mais em casa. Estava bebendo demais.”

“(Uma coisa estranha que ela achava sobre a amizade era que de início a imposição de cada um gerava uma relação dinâmica ditada pelos avanços e reações; você assistia e reagia ao que o outro falava e demonstrava suas opiniões porque estava de acordo com a abertura. Depois de um tempo, a omissão passava a parecer um passo certo; você se questionava se tinha o direito de interferir até aquele ponto ou de até mesmo reagir intensamente, de esboçar uma careta de surpresa quando a pessoa lhe contava um novo segredo.)”