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Quote by Cesário Verde

“De tudo certamente te esqueceste, Porque tudo no mundo morre e muda, E agora és triste e só como um cipreste, E como a campa jazes fria e muda. Esqueceste sim, meu sonho querido, Que o nosso belo e lúcido passado Foi um único abraço comprimido, Foi um beijo, por meses, prolongado. E foste sepultar-te, ó serafim, No claustro das Fiéis emparedadas, Escondeste o teu rosto de marfim No véu negro das freiras resignadas. E eu passo tão calado como a Morte Nesta velha cidade tão sombria, Chorando aflitamente a minha sorte E prelibando o cálix da agonia. E, tristíssima Helena, com verdade, Se pudera na terra achar suplícios, Eu também me faria gordo frade E cobriria a carne de cilícios.”

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Work

Cânticos do Realismo e outros poemas

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Author

Cesário Verde

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“li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios, quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão? quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão: se tinha paixão pelas coisas gerais, água, música, pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos, pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória, paixão pela paixão, tinha? e então indago de mim se eu próprio tenho paixão, se posso morrer gregamente, que paixão? os grandes animais selvagens extinguem-se na terra, os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem, homens e mulheres perdem a aura na usura, na política, no comércio, na indústria, dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera, trémulos objectos entrando e saindo dos dez tão poucos dedos para tantos objectos do mundo ¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega, pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva, e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes, palavra soprada a que forno com que fôlego, que alguém perguntasse: tinha paixão? afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia, ponham muito alto a música e que eu dance, fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna, os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela, a paixão grega”

“O homem que fugiu fugiu da lei que estrada o vestiu não sei Acredito que era o gémeo de um pássaro alerta com a cabeça a prémio O homem que fugiu é meu se alguém o pariu devo ter sido eu sua amante-mãe mulher que inventa o que ele vê e o fere O homem que fugiu ganhou ao jogo a mão incrustada com que rouba o fogo e vos rasga o sono em tiras para que não sonheis mentiras”