“Distanciamento entre clitóris e vagina – objeto de tantas análises e psicanálises. Distanciamento entre clitóris e pênis. Distanciamento entre clitóris e falo, o primeiro se recusando, ao contrário do pênis, a obedecer à lei do segundo. Distanciamento entre o biológico e o simbólico, a carne e o sentido. Distanciamento, enfim, entre os “sujeitos” do feminismo e os próprios feminismos. Distanciamento entre os corpos. Distanciamento entre o destino anatômico do sexo e a plasticidade social do gênero. Distanciamento entre dado de nascimento e intervenção cirúrgica. Distanciamento entre a reivindicação da existência da “mulher” e a rejeição dessa categoria. Distanciamento entre um “nós, as mulheres” e uma multiplicidade de experiências que impede unificar ou universalizar esse “nós” e essas “mulheres”. O distanciamento não é apenas a diferença – diferença entre o mesmo e o outro, ou diferença em relação a si mesmo. A diferença – inclusive a diferença sexual – é só uma manifestação do distanciamento. O distanciamento fratura a identidade paradoxal da diferença, revela a multiplicidade nela contida. É portanto surpreendente que tenha sido escolhido um órgão, uma parte do corpo ou do sexo – o clitóris – para acomodar essa multiplicidade de distanciamentos. Por que privilegiar o clitóris e não outras zonas, não necessariamente genitais? Porque ele é um símbolo mudo. Em primeiro lugar, contam-se nos dedos os filósofos que se arriscaram a falar dele, enquanto fazem inúmeras referências a outras partes do corpo da mulher, seios, vagina ou ninfas, por exemplo. A falocracia da linguagem filosófica já não é um mistério. Batizando-a de “falocentrismo” ou “falogocentrismo”,10 Jacques Derrida, o pioneiro, submeteu-a à desconstrução questionando suas características principais: privilégio concedido à retidão, à ereção (modelo arquitetônico de tudo que fica em pé), à visibilidade, ao simbolismo do falo, e ao mesmo tempo redução da mulher à matéria-matriz, à mãe, à vagina-útero. Em filosofia, nunca se fala do prazer da mulher.”
Quote by Catherine Malabou
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Il piacere rimosso. Clitoride e pensiero
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