“Os dois alemães continuavam. As novas impressões dos ataques indígenas substituíam as antigas. Ao longo do dia, produziu-se uma evolução que não se completou em direção a um saber não-mediado. Tem se que levar em conta que o ponto de partida era uma mediação muito trabalhosa. O procedimento humboldtiano era um sistema de mediações: a representação fisionômica se interpunha entre o artista e a natureza. A percepção direta ficava descartada por definição. E, não obstante, era inevitável que a mediação deixasse de existir, não tanto por sua eliminação, mas por um excesso que a tornava mundo e permitia apreender o próprio mundo, nu e primitivo, em seus signos. No fim das contas, é algo que acontece na vida todos os dias. Alguém começa a conversar com o próximo e quer saber o que ele está pensando. Parece impossível conseguir averiguar isso se não for através de uma extensa série de inferências. O que é que existe de mais encerrado e mediado que a atividade psíquica? E mesmo assim, esta se expressa na linguagem, que está no ar, e que somente pede para ser ouvida. A pessoa se atira contra as palavras e, sem saber, já chegou ao outro lado e está no corpo-a-corpo com o pensamento do outro. Mutatis mutandis, acontece o mesmo com um pintor em relação ao mundo visível. É o que acontecia ao pintor-viajante. O que o mundo dizia, era o mundo. E agora, como complemento objetivo, o mundo tinha parido repentinamente os índios. Os mediadores não-compensatórios. A realidade se fazia imediata, como um romance. Só faltava a concepção de uma consciência que fosse não apenas consciência de si mesma, mas também de todas as coisas do universo. E não faltava, porque era o paroxismo.” GuerraSimulaçãoPerfomanceFingimentoTelepatia Book:An Episode in the Life of a Landscape Painter Source: An Episode in the Life of a Landscape Painter