“Se na paixão encontramos aquilo que supostamente queríamos, isso não acontece sem a nossa parte criativa bastante animada. Sim, estou dizendo que nós inventamos a pessoa amada. As lentes da paixão beiram o delírio e nos permitem olhar para o outro com uma gentileza que quase rompe com a realidade. Porque na paixão idealizamos o outro, não a partir dele mesmo, mas a partir daquilo que gostaríamos que ele fosse. Mas, se tudo funciona bem, o outro cai do pedestal que lhe oferecemos e demonstra sua preferência por vestir sua própria pele, em vez da fantasia que costuramos para ele. E é quando algo do outro pode aparecer que temos notícia da falta, que nos traz nossa companhia maior na vida: a solidão.” Psicanálise Book:A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão Source: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
“É comum que quando um dos parceiros comece um processo de análise ou de psicoterapia o outro se coloque avesso ao trabalho, como se tivesse ciúme do terapeuta, da analista ou mesmo de Freud. É frequente também certa ideia de que, quando um dos parceiros começa a análise, em seguida termina o namoro, o noivado, o casamento. Daí que a segunda enunciação explica a primeira. De certo modo, se o parceiro sente ciúme do analista, é porque sabe que ele mesmo não sairá ileso do processo – que, a princípio, nem é seu, mas passa a ser, em algum nível. Esse ciúme da análise do outro não é sem fundamento: quem faz análise se separa, sim. Mas se separa do quê? Essa é a questão. Às vezes, inclusive, é preciso se separar para continuar junto. Não se trata necessariamente de um rompimento ou de um divórcio, mas da separação de uma determinada maneira de se relacionar.” Psicanálise Book:A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão Source: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
“O que eu gostaria de destacar aqui é que, na ânsia de manter o amor supostamente vivo, há quem mantenha o objeto amoroso distante, única maneira de preservá-lo, já que as coisas se gastam. Sabe aquela louça chique que fica guardada para a ocasião especial que não chega? Há quem trate amor como coisa e, assim, não viva a experiência amorosa no laço com o outro propriamente dito, mas sozinho, em fantasia. É o que chamamos de amor platônico. Uma fantasia amorosa que se preserva por uma distância. Talvez esse modo de viver o amor tenha alguma relação com o isolamento. Talvez esse modo de amar, por outro lado, preserve o que mais nos encanta no amor: a falta.” Psicanálise Book:A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão Source: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
“Quer motivo maior para falarmos do que amor e solidão? Falamos porque somos sós e precisamos proferir palavras para dar notícias de nós e receber algo do outro – e também falamos justamente porque nos somos insuficientes a nós e queremos nos dirigir ao outro. Então, falar é isso, usar o vazio da boca para pedir algo que não se sabe bem o que é. Quando pedimos alguma coisa, nunca conseguimos alcançar exatamente o que desejamos, porque aquilo que coincidiria exatamente com o buraco do desejo – pasmem! – não existe. Por isso aprendemos em psicanálise que o desejo é sempre insatisfeito, na medida em que satisfazê-lo inteiramente está fora do plano da criação humana. Nesse sentido, o desejo é indestrutível. O objeto que viria a realizá-lo existe apenas no campo da fantasia.” Psicanálise Book:A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão Source: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
“A gente não vive sem criar expectativas. Sem expectativas não há motivos para sair de casa, não escovamos nem os dentes, nem sequer abrimos os olhos. É disso que se faz a vida, de expectativas – um nome para a fantasia, talvez! A gente vive porque espera algo da vida. Ama porque espera algo do ser amado. Trabalha porque espera algo do nosso esforço. Expectativa e esperança têm uma relação etimológica com espera, que é bem o que se aprende a fazer nos caminhos do que chamamos de desejo, em psicanálise.” Psicanálise Book:A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão Source: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
“O tal do amor-próprio que, não por acaso, é uma expressão que aparece muito no lado das mulheres, no mercado da feminilidade, então os procedimentos estéticos, maquiagens, adereços, esses adornos falhos que aparecem por aí e essa preocupação relacionada à propriedade que justamente era isso. A mulher como propriedade do homem, a mulher precisando ter valor de mercado, precisando se fazer para o outro para ser amada. Creio que talvez seja sintomático do nosso tempo fazer isso a si mesmo, então já não é mais para o outro, mas tem que ser pra si mesmo pelo menos. Para que daí, depois, seja pelo outro. Enfim, são estes discursos: você precisa primeiro se amar para depois ser amado pelo outro; você precisa se amar e precisa não precisar do outro. Isso vai crescendo e ganhando proporções que vão abandonando as dimensões do cuidado e vão, às vezes, ganhando uma ferocidade superegoica mesmo, né? Nessa obsessão dessa melhor versão, do rosto sem poros, do corpo dentro de um padrão muito milimetricamente impossível e o quanto se vai, tantas vezes, abandonando o cuidado em busca dessa imagem ideal.” Amor Próprio Book:Eu só existo no olhar do outro? Source: Eu só existo no olhar do outro?