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Quote by César Aira

Work

Cómo me hice monja / La costurera y el viento

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Author

César Aira

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“A loucura é um projeto. Você vai afundando aos poucos, ninguém enlouquece de uma vez, é uma invalidação crônica e planejada daquilo que é visto, ouvido e sentido. Como, ao longo da vida, não há quem acredite em você, você deixa de acreditar em todos, em tudo, tudo perde o sentido. O delírio quer ser o avesso disso, quer é dar sentido pra tudo, dar explicação pro mundo. Crer piamente no delírio porque deixou de acreditar em tudo e todos há muito tempo, é a crença pelo avesso, que se dá pela via da descrença a longo prazo. Por isso, a convicção delirante é perseguida, porque se baseia, nos primórdios, na dúvida e no questionamento da realidade, tem um quê de dúvida filosófica.”

“Vi o trator no alto da colina, largado. Um mamute à espera do seu meteoro. E a lua parecia esse meteoro, mesmo parada, e eu sentia o frio da terra em mim, meus pés-raízes procurando fincar. Cheguei a pensar “Vamos, meus filhos”, como se fôssemos levantar juntos. Cheguei a ouvi-los dizer “Fiquemos.” Cheguei a fechar os olhos e sentir meu corpo desaparecer; a ver o céu como um nada; a acariciar o delírio, esse bicho que eu levava para passear e depois acalmava, como a um gato que se insiste em domesticar. Cheguei a dizer “Vamos de volta para casa.”

“Inferi que os demais passageiros perguntavam a si mesmos se aquilo de fato havia sido dito ou se imaginavam, se eram seus próprios demônios que também tinham fome dentro de suas cabeças ruidosas. E era como se pregássemos uma peça, nós dois, e fôssemos mais espertos do que o resto das pessoas naquele vagão, mais vívidos que seus rostos compenetrados de tédio, difusos, mal trabalhados. Depois me senti burro e inerte, porque estávamos todos juntos, afinal, no mesmo trem, indo para o mesmo lugar. Ofereci o isqueiro para acender o cigarro que ela tirava do maço; me ocorreu que queria minha atenção. Falei que poderíamos cultivar uma horta, aonde iríamos, mas ela tratou como um devaneio, mais um. E riu com a ideia de me ver sujo, metido num macacão. Provoquei assegurando que dali em diante iríamos subir em árvores, sentar nas colinas ao pôr do sol, que andaríamos nus de galochas e que se calhasse, meu amor, ficaríamos loucos, discutindo pela janela e quebrando pratos, móveis, com estardalhaço para que todos escutassem e exclamassem baixinho, com medo de que a gente ouvisse: “Os loucos chegaram na cidade”, como se fôssemos vikings invadindo uma aldeia murada; ou “Os loucos da cidade chegaram”, como se toda cidade precisasse de loucos e os encomendasse, e nós estivéssemos a caminho empacotados no vagão; ou então “Os loucos chegaram”, como se fosse um detalhe que alguém diz só por dizer; ou apenas “Loucos”, não mais que um resmungo, como se a cidade fosse louca também.”