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Loucura Quotes

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Loucura Quotes

“E assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que acabou por perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros, tanto de encantamentos como de pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e firmou-se-lhe de tal modo na imaginação, que era verdade toda aquela máquina daquelas sonhadas invenções que lia.”

“O louco não é o homem que perdeu o juízo, mas sim o homem cujo juízo suplantou tudo o resto. O louco é aquele que vê causas em tudo, e essas causas remontam a outras causas, e a outras ainda mais distantes, e cada uma dessas causas suscita uma dúvida ou ramifica-se imparavelmente. O Diabo continua a rir-se. O outro caminho que podemos seguir é aquele que silencia e que aquieta os demónios. Não foi por acaso que Bosch ou Bruegel ou Goya pintaram o Inferno como uma amálgama de corpos lancinados e pungidos, de bocas abertas, gritando, implorando e rugindo. São as vozes dentro da nossa cabeça, aquelas que não se calam quando tentamos abarcar o infinito. Não fomos feitos para saber tanto, nem tão pouco. Fomos feitos para aprender a silenciar essas vozes que nos enlouquecem. No fundo, nem precisamos de Deus. Precisamos de alívio. Deus, Alívio. Pouco importa o que lhe chamam.”

“A Verdade! Aquela que nós procuramos durante toda a nossa vida, sem conseguirmos perceber que está aqui dentro…aqui, pai….aqui, para onde eu aponto, no meu peito, numa junção genética de histórias, nos tons violetas e dourados de um céu que não esconde nada mais do que a sua beleza. Enquanto a Deusa me acena, vejo a metade exata de cada um de nós, aquela que nós vamos procurar incansavelmente durante todos os anos da nossa vida, sem nos deixar perceber que o sonho é uma loucura.”

“A luz dourada - agora quase uma luz crepuscular - ofuscou-a e ela tornou a fechar os olhos, reparando que ocorriam fluxos e refluxos, vermelhos e pretos, à medida que o coração bombeava sangue em suas pálpebras cerradas. Decorridos alguns instantes, notou que os mesmos padrões dardejantes se repetiam indefinidamente. Era quase o mesmo que observar protozoários ao microscópio, protozoários numa lâmina tinta de vermelho. Achou esse padrão que se repetia tanto curioso quanto calmante. Supunha que não era preciso ser gênio, para compreender a atração que essas formas repetitivas exerciam em determinadas circunstâncias. Quando todos os padrões e rotinas normais da vida desmoronaram - e com chocante subitaneidade - era preciso encontrar alguma coisa a que se agarrar, alguma coisa normal e previsível. Se o espiralamento regular do sangue nas camadas finas da pele, que protegiam os olhos dos últimos raios de sol de um dia de outubro, era a única opção que havia, então a pessoa a aceitava e dizia muitíssimo obrigada. Porque se não conseguisse encontrar alguma coisa a que se agarrar, alguma coisa que fizesse algum sentido, os elementos desconhecidos da nova ordem mundial poderiam levá-la à loucura.”

“Como podes saber que és incapaz de amar se nunca amaste? como podes saber que te apetece estrangular os demónios com a tua loucura se nunca foste são? Então para ser louco é preciso ter sido são? Claro, só assim podes gozar a tua loucura. Mas ser louco é não saber nada disso. Pelo contrário, é saber tudo. Só se escolhe a loucura quando se sabe que não vale a pena ser são.”

“Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da própria natureza, fica amedrontado, sentindo que o gérmen daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após".”

“Já era altura de enfrentar novamente a sua pequena grande família, empilhada nos seus dois cubículos, compartilhando uma minúscula casa de banho. Era tempo de regressar novamente à vida do abrigo. Durante algum tempo. «E depois», disse de si para si, enquanto caminhava sozinho ao longo do corredor da clínica até à rampa que levava ao seu piso, ao seu piso de residência, «soarão as trombetas ― e ― desta vez erguer-se-ão não os mortos e sim os enganados. E sua carne não será incorruptível, é triste reconhecê-lo, mas altamente mortais, elimináveis. E ademais, os mortos ficarão loucos.»”

“A loucura é um projeto. Você vai afundando aos poucos, ninguém enlouquece de uma vez, é uma invalidação crônica e planejada daquilo que é visto, ouvido e sentido. Como, ao longo da vida, não há quem acredite em você, você deixa de acreditar em todos, em tudo, tudo perde o sentido. O delírio quer ser o avesso disso, quer é dar sentido pra tudo, dar explicação pro mundo. Crer piamente no delírio porque deixou de acreditar em tudo e todos há muito tempo, é a crença pelo avesso, que se dá pela via da descrença a longo prazo. Por isso, a convicção delirante é perseguida, porque se baseia, nos primórdios, na dúvida e no questionamento da realidade, tem um quê de dúvida filosófica.”

“Vi o trator no alto da colina, largado. Um mamute à espera do seu meteoro. E a lua parecia esse meteoro, mesmo parada, e eu sentia o frio da terra em mim, meus pés-raízes procurando fincar. Cheguei a pensar “Vamos, meus filhos”, como se fôssemos levantar juntos. Cheguei a ouvi-los dizer “Fiquemos.” Cheguei a fechar os olhos e sentir meu corpo desaparecer; a ver o céu como um nada; a acariciar o delírio, esse bicho que eu levava para passear e depois acalmava, como a um gato que se insiste em domesticar. Cheguei a dizer “Vamos de volta para casa.”

“Inferi que os demais passageiros perguntavam a si mesmos se aquilo de fato havia sido dito ou se imaginavam, se eram seus próprios demônios que também tinham fome dentro de suas cabeças ruidosas. E era como se pregássemos uma peça, nós dois, e fôssemos mais espertos do que o resto das pessoas naquele vagão, mais vívidos que seus rostos compenetrados de tédio, difusos, mal trabalhados. Depois me senti burro e inerte, porque estávamos todos juntos, afinal, no mesmo trem, indo para o mesmo lugar. Ofereci o isqueiro para acender o cigarro que ela tirava do maço; me ocorreu que queria minha atenção. Falei que poderíamos cultivar uma horta, aonde iríamos, mas ela tratou como um devaneio, mais um. E riu com a ideia de me ver sujo, metido num macacão. Provoquei assegurando que dali em diante iríamos subir em árvores, sentar nas colinas ao pôr do sol, que andaríamos nus de galochas e que se calhasse, meu amor, ficaríamos loucos, discutindo pela janela e quebrando pratos, móveis, com estardalhaço para que todos escutassem e exclamassem baixinho, com medo de que a gente ouvisse: “Os loucos chegaram na cidade”, como se fôssemos vikings invadindo uma aldeia murada; ou “Os loucos da cidade chegaram”, como se toda cidade precisasse de loucos e os encomendasse, e nós estivéssemos a caminho empacotados no vagão; ou então “Os loucos chegaram”, como se fosse um detalhe que alguém diz só por dizer; ou apenas “Loucos”, não mais que um resmungo, como se a cidade fosse louca também.”