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Mariana Salomão Carrara Biography

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“Sexo casual. Esse namorado dela talvez seja casual. Queria tanto ser casual, deve ser uma delícia ser casual, uma suave passagem de um beija-flor na janela, jamais, nada é casual depois que se é atravessado pela tragédia, outra sintonia, mais melancólica, tudo são fardos, a água da casa dos homens casuais tem outro gosto, os detalhes dos apartamentos mal decorados objetos encaixotados fórmicas descoloridas compensados óbvios lençóis com cheiro de gente, como se pode ser casual reparando na desconcertante neutralidade dos móveis triviais, diferentes dos móveis que tinham uma pessoa deitada por cima e de repente deixaram de ter, diferentes dos móveis em cima dos quais se jantava contando sobre tentáculos exaustos do polvo gigante do Pacífico e de repente não se janta, os móveis dos homens casuais às vezes baratos às vezes muito caros mas todos despojados da contração de uma dor tão estrutural e acachapante, as fibras banais dos móveis deles, as palavras que os homens casuais dizem e que não se encaixam com o que eu aprendi serem as palavras certas de um homem, as melhores para ouvir, nas casas deles eu caminho densa pelos pisos sintéticos laminados que logo se incomodam com meu peso imenso massacrando o acabamento, a água do meu banho que engrossa em mim e atola no ralo, saio alagando os banheiros, vazando pela sala, cachoeira nas varandas, nada me é casual.”

“Na minha cabeça não suicida é sempre possível convencer alguém a viver pelo menos mais umas horas para que possa ter um prazer de uma musse de chocolate com avelã, um vinho forte com gorgonzola, sempre me parece absurdo que alguém não escolha suportar só mais uns instantes a vida em troca de uma panela inteira de brigadeiro quente, um abismo entre mim e os suicidas, mesmo imersa nesse caldeirão denso de preguiças e indiferenças não compreendo o Miguel, nem a Madalena que não estava lá para deixar o cheiro do brigadeiro dominar a casa, ou de repente pães de queijo fresquinhos que escapam do forno e vão até a janela onde o Miguel vacila em desespero e uma pequena vontade de comer pães de queijo já seria alguma vontade e talvez ele concluísse que se ainda existe aquela vontade poderiam voltar a existir outras.”

“Se não quiséssemos engravidar. Se não quiséssemos engravidar e por isso tivéssemos comprado o apartamento da outra rua, de um dormitório. Se eu não gostasse da ventilação cruzada ou então se tivéssemos dinheiro para comprar aqueles apartamentos chiques de janelas de brise que não comportam a passagem de um vizinho suicida. Se eu não estivesse grávida e por isso não tivesse saído animada do exame, pensando no quadro. Se na viagem não tivéssemos achado a loja do pôster de filme que ia se tornar o quadro. Se um dos dois não tivesse visto o filme do pôster. Se a loja do pôster não aceitasse cartão. Se não tivéssemos feito a viagem do pôster. Se eu não tivesse apressado o André para me alcançar e levar o pôster que era finalmente um quadro. Se o porteiro Flávio tivesse puxado qualquer assunto, na saída da portaria. Ou se o porteiro Flávio não tivesse puxado o assunto que talvez tenha puxado, seu André, chegou aquela revista, Oi? A revista, o senhor quer agora? Ah, na volta pego. Se eu tivesse aguentado o quadro, feito mais força, pedido ajuda a qualquer um na rua. Se a Madalena não tivesse escolhido aquele prédio. Se ela não tivesse conhecido o Miguel e casado com ele. Se a Madalena não existisse.”