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Ilse Losa Biography

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“Apesar de eu não saber ler, distinguia bem entre as letras hebraicas, impressas no lado esquerdo do devocionário, e as alemãs, no lado direito. As hebraicas agradavam-me mais: vistosas, arredondadas, levavam, por cima e por baixo, pontinhos e tracinhos, dançavam, por assim dizer, livremente no espaço, enquanto as alemãs, impressas a duas colunas, eram magrinhas, hirtas, bem comportadas. O lado das letras hebraicas fazia pensar uma cabeça endiabrada, cheia de caracóis; o outro, das letras alemãs, na cabeça bem penteada duma senhora idosa, com monótona risca ao meio.”

“Ficámos de novo sem assunto. Olhei à minha volta. O branco é triste como o negro, nunca antes o tinha sentido. (...) Não lhe acariciei a mão, nem lhe pus a minha sobre a testa, num gesto de consolação. Não fiz nada disso. E devia-o ter feito. Mas que a tristeza me dominou, que apeteceu chorar, por ver o meu pai tão doente, isso era verdade. Ele tê-lo-ia compreendido? Decerto é ilusão julgarmos que outras pessoas podem compartilhar dos nossos sentimentos através de simples palavras. Se eu dissesse que vejo na memória um homem encolhido na cadeira, metido num fato largo demais como se não pertencesse, com as mãos amarelo torcidas sobre o ventre e o olhar fixo no chão, alguém o verá como eu o vi?”

“A minha mãe escondia os sentimentos; talvez soubesse amar, não sei, mas não sabia nem dizê-lo nem mostrá-lo. Uma noite, eu fingia dormir, entrou sem fazer ruído. Acendeu a luz da mesinha de cabeceira e contemplou-me uns momentos. Teria gostado de abrir os olhos, deitar-lhe os braços ao pescoço, mas o amor é dar e receber, isso adivinhava sem que ninguém mo tivesse ensinado.”

“As árvores nas margens, cobertas de neve, as raparigas de boina de lã e de mãos medidas no regalo, a música que de tão fogosa aquecia o ambiente, tudo isso pertence aos momentos bué construíram a mesma minha vida, pois que mais é uma vida do que o reportório de momentos? É injusta a Natureza, que priva parte das crianças de um mundo de Inverno branco, de rios gelados em que se dança, para o substituir por chuvas monótonas, por humidade que, agressiva e hostil, nos penetra no corpo. (...) Apetecia-me chorar, não por causa da dor que passou depressa, mas por me sentir o invadida por uma tristeza singular. Era como se alguma coisa de muito belo tivesse desaparecido da minha existência ou como se alguém querido se tivesse despedido para sempre.”

“Curioso como a mãe do Gil, sem saber ler nem escrever, compreendera que Gil tinha de pintar, absolutamente de pintar, nem que para isso ela tivesse de se sacrificar, de se estafar, de morrer. Intuição e grandeza nascem com as pessoas, do mesmo modo que o talento. A sua mãe não fora dessas mulheres. Não que lhe não quisesse bem, esse querer bem, que corresponde a ver realizados nos filhos os sonhos que não soube realizar.”

“Já que não és bonita, deves salientar-te pela inteligência. Assim há se de conseguir mais na vida do que essas criaturinhas que contam com o sucesso do seu palminho de cara. Quero que aprendas também a tocar piano. Assim falou à minha mãe, que se contava entre as mulheres bonitas. Suspeitaria do mal que me causava? Pouco a pouco fui-me convencendo de ser feia. Olhando para o espelho via uma cara redonda, sem dúvida redonda em excesso, via olhos cinzentos (e não era o cinzento a cor mais feia de todas?), cabelo liso, sem ondas nem caracóis. No nariz curto já Anna repararam e gostava de puxar por ele. E como se me meteu na cabeça que os olhos eram demasiado pequenos, comecei a arregalá-los quando caminhava pelas ruas.”

“Se um turista chega a um mundo estranho, onde nem o aspecto exterior, nem a língua, nem os costumes lhe conseguem despertar reminiscências, esse mundo exerce sobre ele um encanto delicioso. Não surge tudo isso que se oferece nos seus olhos - paisagem, costumes e fala - para o seu particular deleite? Não se lhe oferecem todas as características pitorescas para que ele se divirta e tire fotografias? Mas se o mesmo turista se vê, de repente, forçado a permanecer nesse mundo estranho para ganhar o seu pão, o pitoresco torna-se-lhe ambiente quotidiano, os habitantes passam a ser os seus vizinhos, amigos e inimigos e o caso muda inteiramente de figura. O que lhe parecera insólito e exótico ergue-se qual muro espesso entre ele e tudo o que constitui a sua vida, e por muito tempo não passa dum homem à parte, um observador sempre prestes a comparar com este mundo o seu de outrora: um comparsa que, não chegando a pisar o palco, permanece nos bastidores. Por isso o turista é para o estrangeiro domiciliado o que o campista é para um homem que se instalou, de vez, numa cabana.”