“Os pensamentos, como diabos à solta num quarto escuro e abafado, conduziam-me uma e outra vez à mesma conclusão, de que o homem transporta consigo o inferno, e de que o inferno não são os outros mas nós mesmos, quando entregues às nossas ideias mais acérrimas, às nossas intransigências mais cruéis, às nossas dúvidas mais corrosivas.” PhilosophyHellThoughtsHuman Condition Book:O Luto de Elias Gro Source: O Luto de Elias Gro
“Ela afastou ligeiramente o cobertor; um assomo de raiva perpassou-lhe o olhar, endurecendo o rosto, que, a cada dia que passava, ia assumindo os seus contornos adultos. Era a dor; a dor arranca-nos à infância como se arranca uma flor do caule.” PainGrowing UpChildhoodLoss Of Innocence Book:O Luto de Elias Gro Source: O Luto de Elias Gro
“Compreendera então, julgo, a natureza da minha situação. A solidão de um é amenizada pela solidão de outro, e deste modo, mesmo na miséria, existe uma espécie de partilha, de comunhão, a que não se pode dar o nome de alegria mas algo como um encolher de ombros. O estudante franzino fora durante os meus primeiros meses de isolamento esse encolher de ombros, a minha resignação perante a brutalidade daquilo que me acontecera. Que ele tivesse alguém e eu não perturbava-me, colocava um entrave à nossa amizade, um ponto final no nosso monólogo. De uma certa maneira que não sei explicar senão com palavras incoerentes, até então tinha sido como se eu tivesse dado um passo ao lado que me tivesse feito sair do mundo, um pequeno passo discreto e silencioso de retirada. Após essa noite, o mundo notou a minha falta e deu também ele um passo ao lado, mas um passo do mundo é muito maior do que um passo dos nossos, e num certo sentido eu fiquei atrás das coisas, deslocado.” PhilosophySolitudeHuman ConditionHuman Relations Book:O Livro dos Homens sem Luz Source: O Livro dos Homens sem Luz
“A melancolia é impossível de combater porque, a partir do momento em que nos aventuramos no mundo, teremos sempre saudades de tudo. De tudo. Do que fizemos e do que não fizemos, de quem se cruzou no nosso caminho e de quem jamais conseguiremos encontrar.” NostalgiaSaudadeMelancolia Book:Biografia Involuntária dos Amantes Source: Biografia Involuntária dos Amantes
“O louco não é o homem que perdeu o juízo, mas sim o homem cujo juízo suplantou tudo o resto. O louco é aquele que vê causas em tudo, e essas causas remontam a outras causas, e a outras ainda mais distantes, e cada uma dessas causas suscita uma dúvida ou ramifica-se imparavelmente. O Diabo continua a rir-se. O outro caminho que podemos seguir é aquele que silencia e que aquieta os demónios. Não foi por acaso que Bosch ou Bruegel ou Goya pintaram o Inferno como uma amálgama de corpos lancinados e pungidos, de bocas abertas, gritando, implorando e rugindo. São as vozes dentro da nossa cabeça, aquelas que não se calam quando tentamos abarcar o infinito. Não fomos feitos para saber tanto, nem tão pouco. Fomos feitos para aprender a silenciar essas vozes que nos enlouquecem. No fundo, nem precisamos de Deus. Precisamos de alívio. Deus, Alívio. Pouco importa o que lhe chamam.” ConsciênciaConhecimentoLoucuraExistência Book:O Luto de Elias Gro Source: O Luto de Elias Gro
“A qualquer altura, e de maneiras tão cruéis, tão ridículas. Morrer a sangrar dos ouvidos. Morrer de bêbedo. Morrer por saltar de um prédio. Morrer de tristeza. Morrer, morrer. Não havia Ferrabrás para tal sorte, nenhum de nós escapava. E, contudo, existíamos como se a morte fosse um evento distante, anódino, que pertencia aos corredores dos hospitais, aos soturnos enfiamentos dos cemitérios. Vivíamos como se a vida tivesse sentido sem a morte, que nos aguardava a todos, sem excepção. Vivíamos imortais, e depois morríamos, sem apelo nem recurso.” Morrer Book:Ensina-me a Voar Sobre os Telhados Source: Ensina-me a Voar Sobre os Telhados
“As nossas pequenas mandíbulas eram ridículas perante as de um réptil com quase seis metros, a nossa força, exígua; e, contudo, a mordidela humana, quando aplicada à alma, deixava uma cicatriz de que nenhum predador da Natureza era capaz.” AlmaNaturezaJoão TordoCem Anos De PerdãoReptil Book:Cem Anos de Perdão Source: Cem Anos de Perdão
“A vida nem é propriamente um sonho, é mais uma insónia interminável num quarto cheio de melgas.” RomanceVidaSonhoEscritores PortuguesesJoão TordoPessimismoO Bom InvernoInsónia Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“Há quem diga que o suicídio é a forma suprema de egoísmo; que o suicida deixa, na sua esteira, um rasto indelével de dor. A verdade é que, para os que partem, as perguntas cessam. Não se prefiguram mais dramas nem angústias; igualmente nenhuma alegria ou exaltação. O Reino dos Céus é deveras silencioso. Para os que ficam, nem tanto.” Suicídio Book:Ensina-me a Voar Sobre os Telhados Source: Ensina-me a Voar Sobre os Telhados
“Mesmo imaginada, uma dor continua a ser uma dor: está lá quando nos deitamos à noite, está lá antes do pequeno-almoço.” Escritores PortuguesesJoão TordoO Bom Inverno Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“Sem escritor não há livro porque não há texto; sem editor não há livro porque não há publicação. É um jogo de poder.” Escritores PortuguesesJoão Tordo Book:Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço Source: Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço
“É pouco expectável que um miúdo de doze ou treze anos que se «vicie» nas redes sociais desenvolva aptidões para, mais tarde, vir a ser um leitor de livros. As páginas quietas e monótonas provocar-lhe-ão horror, e tantas palavras juntas, e frases e parágrafos desacompanhados de imagens em movimento parecer-lhe-ão tão familiares como pinturas rupestres a um marciano.” Escritores PortuguesesJoão Tordo Book:Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço Source: Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço
“Num país pequeno e com hábitos irregulares de leitura como o nosso, ser escritor é uma profissão de risco, que, levada às últimas consequências, pode equivaler a uma espécie de prisão.” Escritores PortuguesesJoão Tordo Book:Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço Source: Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço
“Queria estar em toda a parte ao mesmo tempo e tinha inveja de toda a gente que estava noutro lugar qualquer. Um bocado como os velhos que têm saudades da ditadura só porque na altura ainda eram novos. Fui um hedonista, e o hedonismo paga-se caro.” RomanceSaudadeEscritores PortuguesesJoão TordoO Bom InvernoHedonismoInveja Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“Peguei no fragmento do dente, colocando-o entre o polegar e o indicador da mão direita, e tive a certeza, nesse preciso momento – como tantas vezes antes, com um baque surdo do coração –, de que havia qualquer coisa profundamente errada comigo.” RomanceEscritores PortuguesesJoão TordoO Bom Inverno Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“Havia alguma coisa naquele objecto – e na dor constante que sentia na perna, e na firme crença de que, dentro de mim, algo apodrecia – que transformava todo o cepticismo da minha juventude no mais puro fel.” RomanceEscritores PortuguesesJoão TordoO Bom InvernoHipocondriaFrustração Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“O médico tivera razão numa coisa: um homem de trinta e tal anos com uma bengala não lembra ao diabo; era preciso mais atrevimento para que o diabo se lembrasse de nós.” RomanceEscritores PortuguesesIroniaJoão TordoO Bom InvernoDiabo Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“Eu, que fora um cobarde, de estômago sensível, comportava-me agora como um profissional da morte, e o desespero alheio – o choro, os gritos, os insultos, as traições – só tinha servido para me deixar mais alerta e, de certa maneira, encher as medidas daquela minha recém-descoberta familiaridade com o Mal.” RomanceMorteMalEscritores PortuguesesJoão TordoO Bom InvernoProfissional Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno
“No caminho do bosque, ensombrados pelas árvores muito altas que se debruçavam sobre nós, ameaçadoras, existia a sensação de que alguma coisa nos observava a partir dos lugares mais recônditos; existia a sensação insidiosa de que alguma coisa nos acompanhava sem dar tréguas, medindo os nossos passos, dois olhos demoníacos escondidos na semiobscuridade das árvores.” RomanceEscritores PortuguesesBosqueJoão TordoO Bom Inverno Book:O Bom Inverno Source: O Bom Inverno