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Thiago Sardenberg Quotes

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Famous Thiago Sardenberg Quotes

“Para um indivíduo em 2020, todavia, o vislumbre de uma pandemia como essa era fundamentalmente de ordem estética, experienciado com o distanciamento seguro oferecido pela arte — que não deixou de povoar o imaginário das últimas décadas com toda sorte de desastres biológicos e epidêmicos, não raramente fabricando cenários de epidemias vampirescas. Certamente, nosso olhar para essas narrativas ganha complexidade no que atravessamos coletivamente o momento de crise. Uma questão, porém, inevitavelmente se assoma: do que nos fala essa — nada sutil — insistência?”

“Tanto na arte como no real, a negação parece funcionar como desesperada, ainda que ineficaz, estratégia de tentar dissimular força e estabilidade, postergando até o último momento possível, inevitável, o enfrentamento real e direto da ameaça. Muitas vezes, porém, nesse ponto, as ações de contenção já não são eficazes ou suficientes. Aos olhos dessas figuras, agências ou instituições governamentais que insistentemente negam ou relativizam as evidências empíricas e/ou científicas, sua admissão pública e transparente parece significar também uma aceitação de submissão à ameaça, um dobrar de joelhos metafórico que simultaneamente veicularia vulnerabilidade — não só à ameaça, como também aos olhos de todos os que de fora veem. Agem como se a negação contínua da realidade fosse, em si, força suficiente capaz de deter o curso de eventos que independem totalmente de seu poder ou vontade. Pergunto-vos: quando é?”

“Na era da (des)informação e da globalização, espalhando-se em progressão geométrica tal como o compartilhamento instantâneo das notícias falsas em um mundo intrinsecamente conectado, os próprios patógenos podem percorrer, em poucas horas, o globo; já não mais se deslocam lentamente, pegando carona com os passageiros de caravelas ou caravanas, meses a viajar por mares, rios ou estradas. As pandemias do século 21 — reais e ficcionais— são intrinsecamente subjugadas ao lado perverso da era da internet e dos aviões a jato.”

“A condição do vampirismo, pensada alegoricamente como doença infecciosa, seria de fato uma calamidade pública: tem alta infectividade, pois o contato direto com o vampiro é extremamente bem-sucedido em produzir novos vampiros, caso as vítimas venham a óbito; alta patogenicidade, pois sempre produz sintomas graves e sinais da doença, tais como os experienciados por Danny Glick; e alta virulência, sendo sua taxa de letalidade extremamente elevada.”

“Tal como a pandemia da covid-19, em sua lúgubre asserção das fragilidades e incertezas que nos cercam, essas narrativas vampirescas com viés epidêmico-apocalíptico convidam reflexões acerca do papel da humanidade na construção desses cruéis cenários de desastre; inevitavelmente, rumamos a um futuro pelo qual teremos de nos responsabilizar.”

“Nas artes, afinal, o vampirismo é como que endêmico — os surtos que retratam aparecem e então se tornam latentes por tempo indeterminado; quando os esquecemos ou julgamos tê-los superado, eis que reaparecem, seus monstros-vampiros funcionando como personificações de uma nova “variante” bem preparada para desarmar as defesas que construímos.”