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Vampire Fiction Quotes

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Vampire Fiction Quotes

“Resta o entendimento de que o contato com o vampiro potencialmente acarreta um contaminar-se por perniciosa moléstia simultaneamente do corpo e da alma: o contágio não é apenas uma infecção, é também maldição, um contrair impurezas. Essa construção perpassa até mesmo o nível linguístico; entre as acepções etimológicas comumente atribuídas ao vocábulo “nosferatu”, que Stoker apenas popularizou ao se referir ao seu vampiro icônico, estariam “o impuro”, ou também, “aquele que carrega doenças”.”

“Matheson instituía assim uma espécie de distopia vampiresca — sua obra servindo, inclusive, como modelo para muitos cenários de “apocalipse zumbi” que surgiriam na segunda metade do século 20, como o clássico A Noite dos Mortos-vivos (1968) de George A. Romero —, fazendo uso desse modo narrativo que se apropria de tensões do presente para imaginar os mais variados cenários de desastre alternativos ou futuros, bem como da figura do vampiro como agente propagador de doenças, o veículo para o apocalipse.”

“Em Drácula, o vampiro, personificação da perversidade e do mal, era repelido pelo símbolo religioso em si, que se tornava uma arma que emanava poder; em ‘Salem, o símbolo somente tinha poder na medida em que a pessoa que o empunhasse houvesse nele depositado uma fé inabalável; já em Eu Sou a Lenda, por outro lado, não importava a fé de quem empunhava o símbolo, e sim, o entendimento do vampiro de seu lugar perante a ele. Entende-se, portanto — embora a narrativa não aprofunde o tema —, que cruzes ou hóstias não teriam qualquer tipo de efeito sobre vampiros que haviam sido ateus, por exemplo. A internalização do ódio parecia residir no âmago do processo.”

“Para um indivíduo em 2020, todavia, o vislumbre de uma pandemia como essa era fundamentalmente de ordem estética, experienciado com o distanciamento seguro oferecido pela arte — que não deixou de povoar o imaginário das últimas décadas com toda sorte de desastres biológicos e epidêmicos, não raramente fabricando cenários de epidemias vampirescas. Certamente, nosso olhar para essas narrativas ganha complexidade no que atravessamos coletivamente o momento de crise. Uma questão, porém, inevitavelmente se assoma: do que nos fala essa — nada sutil — insistência?”

“Tanto na arte como no real, a negação parece funcionar como desesperada, ainda que ineficaz, estratégia de tentar dissimular força e estabilidade, postergando até o último momento possível, inevitável, o enfrentamento real e direto da ameaça. Muitas vezes, porém, nesse ponto, as ações de contenção já não são eficazes ou suficientes. Aos olhos dessas figuras, agências ou instituições governamentais que insistentemente negam ou relativizam as evidências empíricas e/ou científicas, sua admissão pública e transparente parece significar também uma aceitação de submissão à ameaça, um dobrar de joelhos metafórico que simultaneamente veicularia vulnerabilidade — não só à ameaça, como também aos olhos de todos os que de fora veem. Agem como se a negação contínua da realidade fosse, em si, força suficiente capaz de deter o curso de eventos que independem totalmente de seu poder ou vontade. Pergunto-vos: quando é?”

“Na era da (des)informação e da globalização, espalhando-se em progressão geométrica tal como o compartilhamento instantâneo das notícias falsas em um mundo intrinsecamente conectado, os próprios patógenos podem percorrer, em poucas horas, o globo; já não mais se deslocam lentamente, pegando carona com os passageiros de caravelas ou caravanas, meses a viajar por mares, rios ou estradas. As pandemias do século 21 — reais e ficcionais— são intrinsecamente subjugadas ao lado perverso da era da internet e dos aviões a jato.”

“A condição do vampirismo, pensada alegoricamente como doença infecciosa, seria de fato uma calamidade pública: tem alta infectividade, pois o contato direto com o vampiro é extremamente bem-sucedido em produzir novos vampiros, caso as vítimas venham a óbito; alta patogenicidade, pois sempre produz sintomas graves e sinais da doença, tais como os experienciados por Danny Glick; e alta virulência, sendo sua taxa de letalidade extremamente elevada.”

“De um lado, temos a figura do vampiro pré-riceano como a própria personificação de um Outro que é estrangeiro, alheio à nós, aos nossos costumes e valores e que, consequentemente, era construído como perigoso, antagônico, maléfico. Do outro, temos Lestat, que já se viu nesses mesmos lugares e obstinou-se a reconstruir-se para além deles.”

“Se pensarmos na Europa Oriental e na Ocidental como corpos-organismos distintos, o Deméter poderia ser então o vetor que carrega o patógeno-vampiro e o introduz no corpo deste novo hospedeiro suscetível, sem qualquer imunidade. Nem mesmo o vetor, entretanto, resiste à virulência do patógeno; ele próprio sucumbe à doença que inocularia, funcionando também como uma espécie de microcosmo do que poderia vir a acontecer caso o vampiro obtivesse sucesso em sua replicação: um cenário de desastre apocalíptico.”

“Narrativas como Apocalipse V e The Passage evidenciam o papel da humanidade na perturbação e desintegração de ecossistemas, fatores que acabam por favorecer a criação de cenários pandêmicos, no que somos expostos a novos patógenos que se encontravam placidamente contidos, e que podem ser responsáveis pela emergência (ou reemergência) de doenças infecciosas potencialmente perigosas.”

“Se o corpo físico do vampiro pode ter sido extirpado, ele mantém-se presente e vivo em sua inoculação da realização vívida de que suas fantasias fazem parte de nós, residindo como um vírus latente, incurável, que apenas aguarda uma baixa de imunidade para que possa reemergir.”

“O lócus que tradicionalmente habita o vampiro, essencialmente noturno, também perpassa o desconhecido: não tememos a escuridão apenas devido à falta de estímulos visuais que nos priva da percepção de possíveis ameaças, mas também porque ela dá vida e amplifica nossos próprios medos, concretizando no invisível aquilo que nos perturba no íntimo. Assim, se a noite é esse “espaço-tempo em que o terror se sente à vontade”, os terrores que nas sombras me alucinam poderão ser vastamente distintos dos teus, mesmo que juntos a desbravemos.”

“Tal como a pandemia da covid-19, em sua lúgubre asserção das fragilidades e incertezas que nos cercam, essas narrativas vampirescas com viés epidêmico-apocalíptico convidam reflexões acerca do papel da humanidade na construção desses cruéis cenários de desastre; inevitavelmente, rumamos a um futuro pelo qual teremos de nos responsabilizar.”