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Brasil Quotes

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Brasil Quotes

“O senhor tem inimigos?”, perguntaria um dia o biógrafo Emil Ludwig a Getúlio. “Devo ter; mas não tão fortes que não possa torná-los amigos”, responderia. “E amigos?”, insistiria Ludwig. “Claro que os tenho; mas não tão firmes que não venham a se tornar inimigos”, replicaria Getúlio.”

“No século XX ninguém se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, careta. Embora existam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não entendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio [...] Mentira, compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarquei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem eu cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem [...] e exigimos o eterno do perecível.”

“O desvio de armas e munições da própria polícia para os criminosos que eles combatem pode parecer, à primeira vista, incongruente ou suicida. No entanto, era esse mercado que azeitava a engrenagem da guerra que fortalecia a polícia. Por um lado, se as armas e munições de calibre pesado traumatizavam a população da cidade, por outro, ajudavam a transmitir à população a ideia de que os policiais e as forças de segurança eram imprescindíveis para combater o caos e a desordem no Rio.”

“Os paramilitares se dirão defensores da ordem e da tradição, contra a imprevisibilidade proporcionada pela venda de drogas. Já os traficantes se dirão contrários à cobrança de taxas a moradores e comerciantes, além de se colocarem como resistência a uma polícia opressiva e corrupta. Na prática, contudo, o que move ambos os lados é a busca por mais dinheiro e poder.”

“Bolsonaro venceu a eleição de 2018 porque parte dos brasileiros foi seduzida pela ideia da violência redentora. Diante da crise econômica e da descrença na política, os eleitores escolheram um justiceiro para governá- los. Como se o país decidisse abandonar suas instituições democráticas para se tornar uma enorme Rio das Pedras gerida por princípios milicianos.”

“Fatalista, Getúlio preferia atribuir sua chegada ao poder máximo da República à mão caprichosa do destino, como se ele próprio fosse um predestinado. Mas, na verdade, sua ascensão fora fruto da combinação de uma série de circunstâncias e conjunturas históricas, em parte habilmente conduzidas com a ajuda de um impressionante senso de oportunidade e um quase inacreditável talento para conjugar a dissimulação, o estratagema e a prudência.”

“A Odebrecht não era a única a agir assim. Praticamente todas as grandes construtoras tinham seu canal privilegiado com PC — OAS, Andrade Gutierrez e Cetenco estavam entre as mais próximas. E não só empreiteiras, mas também laboratórios farmacêuticos, montadoras de automóveis, mineradoras, empresas de ônibus. Havia esquemas para todos os gostos e necessidades. E um punhado de operadores, como o secretário de Assuntos Estratégicos Pedro Paulo Leoni Ramos, o PP, o secretário particular, Cláudio Vieira, o secretário-geral, Marcos Coimbra, ou Lafaiete Coutinho, presidente da Caixa Econômica Federal. Todos, claro, prestando contas a PC Farias. Aos empresários mais chegados — incluindo os executivos da Odebrecht —, o primeiro-amigo costumava dizer que o presidente da República lhe impusera uma meta: “O Collor quer ganhar do Quércia, que juntou 1 bilhão com a política”. Isso até o dia em que um dos mandachuvas da construtora foi visitar PC na casa que ele mantinha em São Paulo, no bairro do Morumbi, para “reuniões de negócios”. Ao rememorar o episódio anos depois, em uma entrevista, o empresário contou que chegou no final da manhã de um dia de semana e encontrou PC confraternizando com um grupo de pessoas, chacoalhando o copo de uísque à vontade e entre risadas. “PC, que diabo é isso aí?!”, ele foi perguntando, enquanto o outro lhe estendia um copo. “Estamos comemorando 1 bilhão de dólares de arrecadação.” Mais intrigado do que espantado, o empreiteiro fez de cabeça umas contas rápidas. “Mas com o que nós [as construtoras] lhe pagamos ainda não pode ter dado para juntar isso tudo.” PC riu. “Vocês são bestas, vocês são merda! Nossa maior fonte [de propinas], sabe qual é? As telefônicas! A quantidade de equipamentos que essas telefônicas têm de comprar é uma enormidade!”, respondeu PC, ligeiramente satisfeito por ensinar o pai-nosso ao vigário.5 No Rio de Janeiro, o presidente da estatal de telefonia, indicado por PC, era um jovem economista chamado Eduardo Cunha.”

“Getúlio acendeu um charuto da marca Poock, de fabricação gaúcha, soltou uma baforada azulada e, depois de alguns segundos meditativo, respondeu: “Deves ter ouvido dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. Indiscutivelmente, em alguns pontos se assemelham. Por exemplo: eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer aonde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo — e com todas as pedras de volta ao tabuleiro.”

“Vejo esses que chegam e saem a todo tempo. Tão seguros de si, tão felizes e prósperos. Dá uma vontade grande de chamar cada um e pedir, Deixa eu te contar uma história? Era uma vez um país que ficou décadas sem poder escolher o presidente, daí quando foi possível isso acontecer novamente escolheram tão errado que o novo cara meteu a mão na grana de todo mundo, sem pestanejar. E fez tanta merda que foi expulso do trono, e o irmão e o braço direito dele morreram de forma esquisita, e então ficou todo mundo olhando um para o outro dizendo, A culpa foi sua de ter colocado ele lá. Aí veio gente dizer que era melhor antes, quando outros escolhiam, porque essa galera não está preparada para a liberdade, e fim de papo. O cachorro correndo atrás do próprio rabo, e quando o morde tem raiva de estar sendo atacado, e então revida mordendo mais forte ainda.”

“Puxo o ar com mais força. Com o oxigênio que consigo inspirar, vem o pensamento: preciso fugir. Como uma miragem, a fuga aparece, mas se dissipa quando expiro. Preciso ficar. A saída não é pela fuga, mas pela manutenção de territórios. Puxo mais ar. Sei o que devo fazer. Sim, eu sei. Sinto as ameaças. Sinto uma fron-teira. Sinto que é necessário erguer muralhas. Busco em mim. Me investigo. Procuro pelas pedras.”