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A Quotes

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“Aquela era uma noite de arrependimentos. Reclinada no banco do carro, a cabeça pendente para o lado do vidro entreaberto, a cheirar a vómito e a sentir-se mais para lá do que para cá, Anabela só queria chegar a casa e deslizar para o vale dos lençóis envolta num pijama de flanela. Pegou no telemóvel e ligou a quem lhe pudesse valer. A operadora atendeu logo, relembrou que a linha era apenas para emergências e transferiu a chamada, quase sem dar tempo a Anabela, ocupada que estava em suprimir um arroto amargo, de lhe agradecer. – Boa noite, fala o piquete – disse uma voz masculina num tom neutro. – Ai, a minha cabeça... boa noite. Depois de uns segundos de silêncio, a voz do outro lado, mantendo o tom: – Fala o agente Nogueira, o piquete da noite. Posso ajudar? – Err, não está por aí uma senhora, hmm, uma senhora agente, por acaso? – Não. – Ah pois, é que, sabe... fui jantar fora e já não o fazia há muito tempo, e... – Uma náusea fê-la parar. Passou a mão pela testa, que estava quente, e sentiu o peganhento do óleo do stripper, um cheiro enjoativo adocicado, que a fez limpar as mãos à bainha do vestido.”

“Aquele amor não vai voltar [...], você continua esperando o que? Talvez uma versão sua que foi mais feliz, mas não percebe que esperar neste lugar é apenas se esconder de qualquer felicidade que deseja você, a felicidade não abre as portas fechadas. [...] Comece correndo, não olhe para trás, corra com todas as forças até se colocar em uma distância segura, até os seus pés ficarem desmemoriados e perderem o caminho de volta, vai ser melhor para você, suas pernas ganharão músculos, você voltará a sorrir depois da noite escura. [...] Abra as persianas do rosto e olhe para as novas histórias que nascem agora, agarre a sua própria mão e não se deixe cair.”

“Aqueles dentre nós que têm sido verdadeiros leitores durante toda a vida raramente compreendem de maneira plena a enorme extensão do nosso ser da qual somos devedores aos escritores. Compreendemos isso mais quando conversamos com um amigo que é um leitor não literato. Pode ser uma pessoa cheia de bondade e bom senso, mas é alguém que vive em um mundo minúsculo. Nós nos sentiríamos sufocados nesse mundo. A pessoa que está contente em ser apenas ela mesma e, portanto, menos que um "eu", está em uma prisão. Os meus olhos não são o bastante para mim. Eu vejo através dos olhos dos outros. A realidade, mesmo vista através dos olhos de muitos, não é o bastante. Eu verei o que outros inventaram. Mesmo os olhos de toda a humanidade não são suficientes. Lamento que os animais não possam escrever livros. Eu aprenderia com muita alegria qual é a imagem que as coisas têm para um rato ou para uma abelha. Mais alegre ainda ficaria se percebesse o mundo olfativo carregado com todas as informações e emoções que este mundo tem para um cão.”

“aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação.”

“Aquella deixadesa institucionalitzada era la bandera de les classes populars, la seua absència de gust pel debat, la criminalització de tot discurs crític i intel·lectual. Aquella aversió no permetia aprofundir ni per descomptat alimentar detalls metafísics que sostingueren la ciutat en un nivell hermenèuticament superior. Tot pegava voltes als tòpics: l’himne, la paella, les falles, la ressaca del conflicte idiomàtic, la misèria moral que emanava de les restes del franquisme. La València literària era una mòmia dissecada, un manual de trinxeres. La il·lustració havia passat de puntetes per davant dels nostres nassos, deixant-nos una ciutat arrasada i servil que es delectava en el seu espill; una ciutat cegada per la llum, la força de les aparences, l’instint de felicitat gregària. Al final aplegava a una conclusió: aquella màscara era una altra variant suïcida de la melancolia.”

“Aquella fue la primera vez en su vida que Raquel Fernández Perea vio llorar a su abuelo, la primera y la última, la única, pero nunca se sintió privilegiada ni orgullosa por haber sido testigo de su llanto, como había sido tantas veces espectadora de su alegría, porque su abuelo lloraba como un niño pequeño, sin freno, sin pausa, sin consuelo, olvidado de su nieta y de sí mismo, del hombre que había sido y del que seguía siendo, un hombre que había podido morir muchas veces y había salvado la vida para celebrar la muerte de su enemigo bailando un pasodoble con su mujer en una plaza del Barrio Latino de París, muy poco, poquísimo, casi nada, con un frío que pelaba y delante de una pandilla de inocentes, Ignacio Fernández Muñoz, alias el Abogado, defensor de Madrid, capitán del Ejército Popular de la República, combatiente antifascista en la segunda guerra mundial, condecorado dos veces por liberar Francia, rojo, español, y propietario de una pena negra, honda y sonriente que su nieta no olvidaría jamás, como no olvidaría la tarde en que le vio llorar, más solo, más angustiado, más derrotado que nunca, incapaz de seguir reteniendo por más tiempo todas las lágrimas que no había dejado ir mientras toreaba a la muerte por su cuenta, mientras se fugaba de las cárceles, de los campos, de los trenes, de los que le querían matar sólo porque era él, y que eran todos, mientras se acostumbraba al fracaso perpetuo de una vida próspera en un país ajeno, y al sueño imposible de la ciudad propia que volvía a perder cada mañana, porque somos de un país de hijos de puta, vamos a brindar, porque somos de un país de mierda, brindemos, él había levantado la copa, todas sus copas, pero había retenido también todas sus lágrimas para dejarlas ir ahora, sin freno, sin pausa, sin consuelo, para llorar el llanto de una vida entera [...]”

“Aquella noche fue por primera vez a la ópera; con gran sorpresa descubrió que cantaban en italiano y, como no entendía una sola palabra, supuso que toda la representación era una especie de servicio religioso. Deambuló a altas horas de la noche hasta los iluminados chapiteles de San Esteban; la torre sur de la catedral, leyó en una placa, se había iniciado a mediados del siglo XIV y concluido en 1439. Viena, pensó Garp, era un cadáver; posiblemente toda Europa era un cadáver ataviado en un ataúd abierto.”

“Aquella tarde, de regreso a casa otra vez sin el gato y sin ella, comprobé que no sólo era posible morirse, sino que yo mismo, viejo y sin nadie, estaba muriéndome de amor. Pero también me di cuenta de que era válida la verdad contraria: no habría cambiado por nada del mundo las delicias de mi pesadumbre. Había perdido más de quince años tratando de traducir los cantos de Leopardi, y sólo aquella tarde los sentí a fondo: Ay de mí, si es amor, cuánto atormenta.”