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N Quotes

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“Não havia ali ninguém. As suas palavras desvaneceram-se. Como um foguete se desvanece. As suas fagulhas, tendo traçado uma trajetória luminosa na noite, entregam-se a ela, a escuridão desce, derrama-se sobre os contornos das casas e torres; colinas sombrias a ruírem e a esfumarem-se. Mas apesar de ocultas, a noite continua cheia delas; privadas de cor, destituídas de janelas, existem mais intensamente, exprimem aquilo que a luz do dia não consegue transmitir - a inquietação a expectativa das coisas amontoadas na escuridão: aconchegadas nas trevas; despojadas do alívio que o amanhecer lhes traz quando, ao lavar as paredes de branco e cinza, ao salientar cada janela, ao erguer a neblina dos campos, mostrando as vacas vermelho-acastanhadas pacificamente a pastar, tudo volta a ser desvendado perante o olhar; tudo volta à vida.”

“Não há motivo, no entanto, para pensar que a inteligência artificial vai adquirir consciência, porque a inteligência e a consciência são coisas muito diferentes. A inteligência é a capacidade de resolver problemas. A consciência é a capacidade de sentir coisas como dor, alegria, amor e raiva. Tendemos a confundir as duas porque, no caso dos seres humanos e de outros mamíferos, a inteligência anda de mãos dadas com a consciência. (…) O perigo é que, se investirmos muito no desenvolvimento da inteligência artificial e pouco no desenvolvimento da consciência humana, a sofisticada inteligência artificial dos computadores só servirá para dar mais poder à estupidez natural dos seres humanos.”

“Não há mundos paralelos, Daniela sabe disso muito bem. Sobreviveu à mediocridade: estou disposta a tudo, gostava de dizer anos atrás. E era verdade. Estava disposta a tudo, a fazer qualquer coisa, a receber o que quisessem lhe dar, a dizer o que fosse preciso dizer. Estava disposta até mesmo a ouvir sua própria voz dizendo frases que não queria dizer. Mas agora não. Agora não está mais disposta a tudo. Agora é livre.”

“Não há outra possibilidade de o inconsciente vir à tona senão no dizer. No entanto, no dito, a verdade do sujeito propriamente dita estará perdida na sua integridade, visto que aí aparece sob o disfarce do sujeito do enunciado, única forma da “verdade do sujeito” poder emergir, ainda que se “meio dizendo”. Não só o sujeito emerge de maneira disfarçada: também seu discurso articulado é uma forma de disfarce em relação à verdade do desejo do sujeito. Portanto, o “eu” que aparece no discurso como sujeito do enunciado, capturado pela ordem subjetiva, acaba por ocultar o sujeito do desejo. Nesse ato de ocultação, se dará a objetivação imaginária do sujeito, que se vê identificado com as representações que aparecem no discurso. Essas representações ou “lugares-tenentes”, em que o sujeito se perde em sua verdade, acabam por reduzi-lo a uma representação imaginária, de que o sujeito lançará mão para se identificar. Nesse sentido, o eu (sujeito do enunciado) aparece como substituto do sujeito em si (sujeito da enunciação): na medida em que este último escapa à possibilidade de ser representado, é o eu que aparecerá para o sujeito como o seu representante. Trata-se, portanto, de verificar como o eu pôde ser construído como representante do sujeito.”

“Não há, portanto, brancos e negros, mas sim mecanismos de atribuição de sentido a traços fenotípicos para que a dominação de um grupo sobre outro possa ser legitimada. Assim, devemos entender a raça como uma construção social que procura validar projetos de dominação baseados na hierarquização entre grupos com características físicas distintas. Ao se construir minorias raciais como grupos com traços morais específicos, membros do grupo racial dominante podem justificar um sistema de dominação que procura garantir a permanência de oportunidades sociais nas suas mãos. ... Portanto, o conceito de raça é produto de um processo de atribuição de significados que expressa o poder de grupos majoritários de construir sentidos que corroboram relações raciais hierárquicas. Por ser uma construção cultural, a raça pertence ao mundo simbólico, expressando sentidos que são criados com o propósito específico de dominação. Isso significa que ela não possui significados fixos, mas adquire conotações específicas dentro de contextos culturais e históricos particulares. Por esse motivo, o pertencimento a grupos raciais pode mudar ao longo do tempo dependendo dos interesses materiais dos grupos dominantes. Assim, o processo de racialização de grupos humanos é um exercício de poder que proporciona os instrumentos para a dominação de certas populações, pois elas são criadas como diferentes e inferiores.”

“Não me acreditarás se eu te disser o que tenho diante de mim, todas as imagens da igreja estão com os olhos vendados (...) Imagino esse homem a entrar aqui vindo do mundo dos cegos, aonde depois teria de regressar para cegar também, imagino as portas fechadas, a igreja deserta, o silêncio, imagino as estátuas, as pinturas, vejo-o ir de uma para outra, a subir aos altares e a atar os panos, com dois nós, para que não deslacem e caiam, a as sentar duas mãos de tinta nas pinturas para tornar mais espessa a noite branca em que entraram, esse padre deve ter sido o maior sacrílego de todos os tempos e de todas as religiões, o mais justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver.”

“Não o nego, mas cativa-me a ideia da possibilidade, da liberdade. Quando tenho muitos livros para ler, tenho escolha. Quanto menos tiver, mais a minha liberdade está confinada. Ela depende dos livros que não são lidos. Se temos apenas um caminho, não temos liberdade, teremos impreterivelmente de o seguir. Para ela existir, temos de ter possibilidades, muitas, porque só daí pode resultar uma escolha lúcida.”

“Não, padre- disse ele.- Eu tenho outra ideia do amor. E hei de recusar até à morte amar esta criação em que crianças são torturadas. No rosto de Paneloux passou uma sombra de perturbação. -Ah, doutor - exclamou ele com tristeza -, acabo de compreender aquilo a que se chama a graça! Mas Rieux deixara-se cair de novo no seu banco. Do fundo da fadiga que lhe voltara, respondeu com mais brandura: -É o que eu não tenho, bem sei. Mas não quero discutir isso consigo. Trabalhamos juntos para qualquer coisa que nos une para lá das blasfémias e das orações. Só isso é importante. Paneloux sentou-se junto de Rieux. Parecia comovido. -Sim - disse ele -, é verdade, também o senhor trabalha para a salvação do Homem. Rieux tentou sorrir. -A salvação do Homem é, para mim, uma palavra demasiado grande. Não vou tão longe. É a saúde que me interessa, a sua saúde em primeiro lugar.”