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O Quotes

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“Os Ombros Suportam o Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus Tempo de absoluta depuração Tempo em que não se diz mais: Meu amor Porque o amor resultou inútil E os olhos não choram E as mãos tecem apenas o rude trabalho E o coração está seco Em vão mulheres batem à porta, não abrirás Ficaste sozinho, a luz apagou-se Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes És todo certeza, já não sabes sofrer E nada esperas de teus amigos Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo E ele não pesa mais que a mão de uma criança As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios Provam apenas que a vida prossegue E nem todos se libertaram ainda Alguns, achando bárbaro o espetáculo Prefeririam (os delicados) morrer Chegou um tempo em que não adianta morrer Chegou um tempo em que a vida é uma ordem A vida apenas, sem mistificação”

“Os paramilitares se dirão defensores da ordem e da tradição, contra a imprevisibilidade proporcionada pela venda de drogas. Já os traficantes se dirão contrários à cobrança de taxas a moradores e comerciantes, além de se colocarem como resistência a uma polícia opressiva e corrupta. Na prática, contudo, o que move ambos os lados é a busca por mais dinheiro e poder.”

“Os poucos heróis culinários que havia no Dreadnaught eram admirados mais pela sua resistência em combate – medida pelo número de pratos servidos numa noite, quantidade de dor e de calor suportados, número de empregadas comidas e cocktails consumidos sem efeitos aparentes. Esses eram os valores compreendidos e apreciados.”

“Os prazeres privados e de certo modo solitários para os quais criara uma arquitectura dependiam a tal ponto do dispositivo arquitectónico que se podia dizer que a máquina se tornara mais importante do que aquilo que produzia, ou, como sucede nas religiões iconófilas, as imagens fixavam mais fortemente a fantasia e a fé dos crentes do que os valores imateriais que deveriam representar, uma analogia cuja ascendência filosófica, de Feuerbach e Marx, Joaquim Heliodoro ignorava tão completamente quanto o desenvolvimento que fora imprimido à ideia por Freud e pelos seus seguidores, ao discutirem o conceito de objecto-fetiche, primeiro como substituição de um objecto ausente, depois como fixação num objecto presente mas dotado de um significado libidinal pela sua utilização. Joaquim Heliodoro sabia muito pouco destas coisas, mas, enquanto poeta, não queria que o desvelamento dos seus fetiches o fizesse despertar.”

“Os riscos inteligentes baseiam-se numa alargada e voraz recolha de dados confrontados com um sentido intuitivo; as decisões estúpidas são construídas de uma base demasiado restrita de dados. A reação franca daqueles em quem confiamos e respeitamos cria uma fonte de consciência própria que nos protege de dados de informação enviesados, ou de pontos de partida questionáveis.”

“Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, nossa imaginação passa a trafegar o tempo entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos. O romance em nossas mãos pode nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. Ou pode nos levar até as profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece semelhante às pessoas que conhecemos melhor. Estou chamando atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento de tempos em tempos que abarca os dois extremos. Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados em suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida cotidiana. E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles lêem, sonham os sonhos do autor, imaginam a existência dos seus heróis e vêem o seu mundo. E então, agora, esses leitores, como o próprio autor, acabam tentando imaginar o outro; eles também se põem no lugar de outra pessoa. E são esses os momentos em que sentimos a presença da humanidade, da compaixão, da tolerância, da piedade e do amor no nosso coração: porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.”

“Os seres humanos, evidentemente, têm vontade, têm desejos e, por vezes, são livres de cumprir esses desejos. Se por «livre-arbítrio» entendermos a liberdade de fazer o que se deseja, então, sim, os seres humanos têm livre-arbítrio. Mas se o «livre-arbítrio» significar a liberdade de escolher aquilo que se deseja, então, não, os seres humanos não têm livre-arbítrio.”

“Os terroristas calculam que, quando o inimigo enraivecido usa o seu enorme poder contra si, cria uma tempestade militar e política muito mais violenta do que eles algum dia conseguirão criar. Durante todas estas tempestades acontecem coisas imprevistas. Cometem-se erros e atrocidades, a opinião pública oscila, as pessoas neutras mudam de posição e o equilíbrio de poder altera-se.”

“Os verdadeiros pensadores, os que pensam, transpõem, sem ninguém dar por isso - nem eles próprios - todas as possíveis limitações. A Censura da Inquisição não impediu, por exemplo, em Portugal e em Espanha, o aparecimento de eternas obras-primas, respeitadas até nos seus atrevimentos. Nunca a protecção aos artistas foi tão longe - protecção aos mais audaciosos, aos mais irreverentes - como na Roma papal. E ainda hoje é aos Estados autoritários que a Arte mais deve porque são os mais construtivos, porque procuram febrilmente deixar na nossa época alguma coisa de durável, de eterno. Além de que a ordem foi sempre o verdadeiro clima de beleza.”